sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Xavier, com S.

Diz que sim como os da sua terra: faz pender a cabeça para a direita e para a esquerda, com as orelhas no sentido do ombros. Direita-esquerda-direita-esquerda e um sorriso largo continuado. Por cima disso um bigode intermitente: ora crescido, ora cortado.
- “Uns amigos preferem de uma maneira, outros de outra. Faço a vontade a todos”, diz, num riso nervoso.
Chama-se Xavier, pronunciado com S., mas na placa dourada, posta na camisola verde da farda, só se lê Xavier.

Nasceu em Bombaím, Índia, e a sua pele tem a cor da sua terra, onde deixou os pais, à procura de uma mulher para casar com os seus olhos escuros e com as suas gargalhadas permanentes.

- “Vim para o Dubai para poder juntar algum dinheiro. Quero casar. É isso que mais quero: casar e ter uma família”, diz-me, a encolher os ombros e a virar o rosto, de vergonha.

Xavier, com S., é licenciado em Ciências Farmacêuticas e chama-me “M’am”, de senhora, com S. maiúsculo. É assim que tem que ser: eu sou cliente de um hotel tão luxuoso que me tira o ar (a minha casa-de-banho é do tamanho da sua casa) e ele vem para fazer limpezas.

- “Ganho muito bem, adoro estar aqui. A minha casa fica só a uma hora de autocarro. Divido o quarto com três amigos, é muito bom. O hotel paga-me o quarto, o transporte e a comida.”

Ganha o dobro do que ganharia na Índia, a trabalhar como farmacêutico, se tivesse a sorte de conseguir um emprego: 280 euros. Trabalha oito horas por dia e tem quatro folgas por mês. Vai sair daqui “um bom partido” e “confia no gosto dos pais para lhe escolherem a mulher”.

- “Vai ser linda. E cristã, como eu”. E um olhar brilhante, como quem já lhe vê a cara.

Xavier tem a pele das mãos seca, e uma unha da mão direita partida. Gosta de música. Acha o fado triste mas já sabe dizer saudade; tem-na escrita num papel que traz no bolso.

Demora até aceitar um chá, um pedaço de bolo ou uma bolacha. Que “obrigada-mas-já-comi-e-comi-muito-bem-a-comida-é-óptima-mas-obrigada-Senhora”. E outras gargalhadinhas nervosas, de falta de hábito.

- “Os hóspedes deste hotel são muito ricos e normalmente mal educados. Olham pouco para nós e conversam connosco muito raramente. Mas não faz mal, eu também não quero conversar com eles.”

Depois de casar, em Junho, vai "ficar dois meses na Índia, com a mulher, e depois volta. E vai, e volta, e vai e volta, para ter uma boa vida.”

Enquanto não casa, é a minha companhia de antes do almoço, e mais uma no meu coração.

- “Limpo os outros quartos a correr para vir conversar contigo”, sorri-me. E eu levanto-me mais cedo para conversar com ele, sorrio-lhe de volta.

Descobri, entre as tralhas que o Vítor nunca consegue deitar fora, um leitor de mp3. Ofereci-o ao Xavier, entupido de fado. Ele adorou. Agora tem onde ouvir Portugal até o decorar, e já não precisa de trazer a saudade, com S., escrita num papel.

2 comentários:

borges disse...

Ha uns que cantam sem parar até que a voz lhes doa. Pf escreve até que a mão te doa, assim... com afeto e carinho.

João Pedro Venceslau disse...

Belo post para o nosso amigo Xavier...

Sem escrever tão bem, e de uma maneira tão ilustrativa, posso dizer-te que o Xavier continua a fazer questão de limpar o nosso 1804, mesmo sabendo que de vez em quando existem jantaradas que deixam a casa num caos...

Todos os dias dá um ou dois dedos de conversa comigo, vitor ou calvino, e sempre pelo meio pergunta por ti...

:)

Obrigada por mais um post aqui das arabias...

Beijinhos do Al Ramalah