sábado, janeiro 30, 2010

O bigode da prima Glória

Ao longe percebia-se bem que não era casamento de gente fina. Ao perto percebia-se ainda melhor.

A prima Glória casou com o primo Jaime vestida de saia-casaco, numa cerimónia simples, marcada para muito depois de expirada a idade conveniente às moças naquele tempo.

Afiança a minha avó, nova ao tempo do enlace, que a cerimónia foi singela e que da união nunca saiu fortuna.

A prima Glória era uma mulher de pouca sorte no desenho das feições, que a vida compensara no desenho da figura.

Trabalhou quase toda a vida na taberna que montou com o primo Jaime – que só via de um olho e começou esta história posto num fato de fazenda humilde mas composto, embora emprestado – perto de uma esquina numa rua da Arrentela.

A prima Glória tinha medo de andar de carro, nunca aceitou uma boleia do meu pai.

Foi a Pigó da infância do meu irmão e apareceu na minha vida tirada de um embrulho de fotografias numa gaveta desordenada.

A defunta prima Glória estava arrumada junto ao defunto primo Jaime, os dois desenhados a sépia.

Pelas minhas contas, passaram anos num namoro sôfrego e embrenhado no escuro daquela gaveta obesa.

Pensei muito nisto e agora sei que ali só pode ter acontecido muita pouca vergonha: Quando a minha mãe os encontrou, naquela tarde de arrumações, era muito difícil dizer quem dos dois tinha mais bigode.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Cacilhas, a cabra, o moinho e o jornal

A sala do edifício entre as curvas de séculos a debruçarem-se sobre o rio tinha umas 100 pessoas viradas para o Tejo, a ouvir autarcas e arquitectos.

Os cacilhenses estão desde 1999 à espera de um plano de pormenor que lhes arrume a terra.

Parece que agora é que vai e, garante a mão do desenho, “a freguesia será a porta da cidade”.

Diz que vai ser por este lado do rio que Almada vai sorrir a quem chega, que é por aqui que se entra.

Na terceira fila, uns caracóis brancos a tocar nos ombros de um casaco grosso. Uma mulher que é daqui levantou-se para falar.

Primeiro não precisava de microfone, que a voz do coração faz eco e ouve-se bem.

Mas depois, “façam o que quiserem a Cacilhas mas não nos levem o moinho”.

A senhora que nunca se virou para as filas de trás esticava o braço, apontando as saias da sua infância.

“Sou do tempo em que ao lado do moinho havia uma cabra. Eu dei pedaços de jornal àquela cabra ao lado do moinho. E ela comeu”.


Parece que para a cabra já não há remédio, que se foi de madura, mas o moinho de quando aqueles caracóis eram loiros ficou prometido.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Uma comédia de morte

“Uma visita inoportuna” transforma o trágico da vida numa comédia de morte”. Está em cena no Teatro Municipal de Almada até 7 de Fevereiro, de quinta-feira a domingo.

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"Uma comédia de morte"
. É assim que o encenador Philip Boulay, director artístico da Wor(l)ds Compagnie, descreve a última obra escrita pelo cartonista, romancista e dramaturgo argentino Copi (pseudónimo artístico de Raúl Damonte Botana).

"Esta peça foi escrita numa altura em que ele já sabia que tinha Sida e que morreria em breve", recordou.

“E o que é interessante neste texto é que Copi transforma o trágico da vida numa comédia de morte, sempre com um tom pleno de elegância. É com elegância que ele se despede do teatro e do seu público”.


Para Boulay, “como em todo o teatro deste autor, esta peça põe em cena um episódio da sua vida”: “Hoje, mais de 20 anos depois da sua morte, há uma coisa que podemos observar: a estrutura das suas peças exprime uma mecânica da angústia, e foi isso que me interessou”, disse.

O encenador sublinhou ainda o facto de, “nesta interpretação, Copi ser visto num sentido amplo do termo, fugindo a conotações de outras épocas, que reduziram a peça à ideia de uma comédia gay”.

“É certo que a sexualidade tem importância, mas a peça não se esgota nela. Nem Copi pode ser visto apenas como um autor gay, ele é polimórfico”, considerou, acrescentando que “o essencialismo é a pior coisa que podemos fazer a um autor e à sua obra”.

Diogo Dória veste a pele e o pijama de Cirilo (Copi), uma personagem da qual se aproximou “olhando para cada palavra do texto, porque todas as palavras eram Copi e a sua essência”.

Para o actor, “a força desta peça é a relação entre o trágico, que é a morte, e a grande gargalhada, que é a vida”: “O público vai confrontar-se com a morte e vê-la ser tratada de uma forma muito colada à vida”, prometeu.

É assim que, no quarto de hospital onde Cirilo (Copi) morre de Sida, e no dia em que passam dois anos sobre a data em que soube estar infectado, que se cruzam personagens hilariantes e bizarras, que dão forma a esta tragicomédia.


À volta desta morte inevitável - e a parodiá-la - estão Humberto, velho amigo, que veio anunciar a construção de um luxuoso mausoléu, até ao jovem e tímido jornalista que lhe desperta uma paixoneta, passando por uma louca diva de ópera italiana, um médico que pratica lobotomias nas horas vagas e uma enfermeira que fuma ópio.

“Une visite inoportune” estreou em 1988, no Théâtre de la Colline de Paris, já depois da morte do autor.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Monsaraz e um copo de três


Em Monsaraz vivem apenas 37 pessoas. A maioria é de poucas palavras.



Murmura-se, entre as paredes de uma pousada onde o bolo de mel é o primeiro sorriso da manhã, que todos sentem nos ossos, e nas paredes de casa, a humidade que a exuberante e excessiva barragem do Alqueva põe no ar.

Na rua, ouvem-se bons dias arrastados, à moda da terra. Está frio de gola alta, gorro e luvas, e ainda assim sobra.

É nestas ruas estreitas, talhadas a pedra e cal, que o Ti-Zé-das-canitas passeia os bichos e mete a pinga à boca. Sempre dois copos de três, para ninguém ficar com sede, mesmo quem não bebe vinho, porque ladra.

Nas ondas de pedra e nas curvas ainda há um presépio feito vivo com gesso e trapos e bilhas à cabeça.

Monsaraz cheira à enorme fogueira que acenderam à porta da igreja, no centro da vila, e cheira aos sabonetes da senhora grega que abriu uma loja de “todo o tipo de coisas que sejam diferentes”.

Esta terra agasalha a cabeça com os chapéus de feltro que se vendem na loja de “uma holandesa que-veio-para-cá-e-não-voltou-para-lá-e-tem-um-filho-que-tem-um-restaurante-ou-uma-galeria-ou-o-que-é” e uma empregada que tem os olhos contornados a azul celeste e molhados com saudades de Almada.

Monsaraz enrola-se nas mantas artesanais espessas e pesadas que todos os netos de alentejanos conhecem da sua infância.

E naquela tasca onde o Ti-Zé-das-canitas faz sempre a mesma piada com os dois copos de três bebe-se o melhor café de todo o Alentejo.