sábado, dezembro 25, 2010

O acampamento de Sem Terra 08 de março está “na luta”, ao sol, por um pedaço de terra

O acampamento 08 de março, de militantes do Movimento dos Sem Terra (MST), está na berma de uma estrada a vinte minutos da cidade de Corumbá, no Estado do Mato Grosso do Sul, “na luta”, ao sol, “à espera de uma pedaço de terra para cultivar”.


As cerca de 60 famílias de militantes do MST estão acampadas no chão vermelho da berma de uma estrada que conduz ao Pantanal há mais de seis meses. Todas têm casa a poucos quilómetros, nas cidades de Corumbá e de Ladário. Há tendas improvisadas com troncos finos e lençóis de plástico preto grosso e duas bandeiras hasteadas: a do Brasil e a das ideias.

Há jerricãs, cavalos, cães e galinhas. Há militantes de pele morena e chinelos nos pés, uns a trabalhar, outros à sombra, a conversar e a beber tereré [uma bebida de origem guarani, feita com a imersão da erva-mate].

Miriam e Anderson são coordenadores do acampamento. A mulher explica que “até chegarem onde querem chegar, as famílias [aqui representadas] têm que passar por um processo doloroso, longo, por muitas dificuldades”.

O homem – rapaz, ainda – fala pouco, mas ela fala por ele: “Tenho sete filhos, nenhum deles aqui comigo. Deixei a minha família para estar aqui. Esta é minha nova casa. Não temos crianças na comunidade porque ainda não conseguimos organizar-nos para que os meninos possam ter aulas”, explica.

São eles a voz desta “família grande que se juntou na luta”. Têm a tarefa de dialogar com a autarquia e com outras entidades para conseguirem benefícios para a comunidade. São eles que vão articular-se com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária até que se encontrem na região fazendas que possam ser desapropriadas e divididas em parcelas de terreno, que serão distribuídas pelos militantes e depois cultivadas. O processo pode demorar entre um e cinco anos.

Pelas contas do MST, existem pelas bermas das estradas do Brasil 90 mil comunidades com esta.

A coordenadora explica ainda que “há alguns militantes que trabalham na cidade e só vêm ao acampamento quando têm folga e outros, como é o seu caso, que permanecem e vivem com a cesta básica de alimentos que o Governo dá”.

Estar aqui, diz, “é maravilhoso, os dias são gostosos”, e é imprescindível: “Tem que ficar aqui, não tem que abandonar, tem que correr atrás até conseguir. Esse é o objetivo”, acrescenta.

Sentado num banco baixo, sem costas, Elisiomar Rodrigues da Silva conta que nasceu e cresceu numa fazenda: “Vim para aqui por causa da falta de emprego na. As máquinas estão a tomar o nosso espaço na fazenda, a empurrar-nos para a cidade”, diz. Tem cinco filhos entre os nove e dois anos. A família não está no acampamento e Elisiomar sente saudades mas está certo de que se não for ele a lutar pelos filhos, não há quem lute.

O seu objetivo é “arrumar uma terrinha para criar as crianças sem depender dos outros”: “O lucro que a gente dá para o patrão é o prejuízo que a gente toma, que a gente sai de madrugada e não tem horário para voltar”, considera.

Quando tiver um pedaço de terra vai “plantar uma mandioca, um milho, um feijão, que é a comida do pobre. Mas sem depender de patrões porque só nos querem enquanto temos saúde. Quando se perde saúde deixa-se de se ser bom”.

No acampamento, garantem, “é tudo gente humilde”, que precisa de terra, que quer trabalhá-la.

Deuvek é camponês e vai licenciar-se em Geografia na escola do Movimento dos Sem Terra

Deuvek Mateus, 52 anos, é camponês, militante do Movimento dos Sem Terra (MST), e vive há 26 anos num assentamento que ajudou a erguer depois de ocupar o terreno com outras 300 famílias. Tem cinco filhos, todos licenciados. Agora foi a sua vez de vir à escola.


O camponês está na Escola Nacional Florestan Fernandes, do Movimento dos Sem Terra, a fazer uma licenciatura em Geografia. O curso é uma parceria entre a escola do MST e a Universidade Estadual Paulista e é reconhecido pelo Governo brasileiro. Deuvek Mateus escolheu Geografia por considerar que “as disciplinas se ligavam ao [seu] percurso dentro do movimento e seriam úteis à comunidade” em que vive: “Interessam-me sobretudo as questões relacionadas com organização dos assentamentos [cooperativas plurifamiliares de produção agrícola]”, conta.

Durante cinco anos, o tempo da licenciatura, Deuvek vai dividir-se entre “tempo escola” e “tempo comunidade”, tempo da teoria e tempo da prática. “Chama-se pedagogia da alternância, assim o conhecimento flui e cresce”.

Este camponês passou, com a sua família, pelo processo que as mais de 90 mil famílias acampadas à beira de estradas por todo país esperam passar. Hoje, diz, as 300 famílias do assentamento em que vive “estão numa fase bastante consolidada”.

“É uma comunidade organizada do ponto de vista social. Apesar de cada uma ter a sua área para produzir há todo um processo de cooperação na vida social, e também na produção. Os trabalhadores utilizam equipamento coletivo e planeiam a produção em conjunto”, conta.

As famílias já construíram as suas casas, existe um posto de saúde, energia elétrica, e produz-se feijão, arroz, milho, verduras, frutas e leite. Além de garantir a subsistência das 300 famílias da comunidade, a cooperativa agrícola coloca produtos no mercado e gera receita.

Antes de chegar aqui, “a vida da comunidade foi dura”. O camponês passou vários anos sem ter dinheiro para comprar sequer um chocolate para os filhos. Não se arrepende. Acredita que é na reforma agrária que está a chave para o desenvolvimento do Brasil.

Deuvek defende que a ocupação de terras é uma ação política, organizativa e socioeconómica. E explica: “Podemos dizer que é uma ação do ponto de vista político, porque questiona o latifúndio, que é uma ação organizativa, porque é daí que nasce a organização, mas também que é uma ação do ponto de vista socioeconómico, porque responde às necessidades básicas das famílias e dos trabalhadores sem terra do Brasil”.

Não há, argumenta, outra forma de o país avançar: “Só a reforma agrária vai permitir resolver os problemas estruturais do Brasil como o desemprego, a falta de alimentos e a questão ambiental”.

terça-feira, dezembro 21, 2010

Na escola dos Sem Terra o camponês é doutor e revolucionário

Na escola nacional Florestan Fernandes, em São Paulo, o Movimento dos Sem Terra (MST) dá a milhares de camponeses militantes uma oportunidade que lhes foi negada durante gerações. Nesta escola o camponês estuda para ser doutor e revolucionário.


A escola fica a mais de uma hora de carro do centro de São Paulo, em Guararema. Em seis anos de passaram por aqui mais de 16 mil pessoas, entre alunos e professores, todos voluntários.

O espaço é amplo, desenhado em linhas retas e cores claras, arejado, arrumado. Há silêncio e cheira ao verde que há à volta. Pelas paredes, entre os pátios, há espaços de reflexão, poemas, fotografias, palavras de ordem. Bertolt Brecht, José Saramago, Sebastião Salgado, Karl Marx.

Nas salas de aula há janelas compridas, cheiro a giz, cadeiras vermelhas e revolução posta nas toalhas da mesa dos professores e pregada no quadro de cortiça que fica nas costas dos alunos.

Aqui, explica o porta-voz do MST João Paulo Rodrigues, acontece um processo de lapidação política teórica, curricular, que se espalha por todo o país. A escola é um método político de formação e de educação do movimento nacional e de outros movimentos sociais nacionais e internacionais”.

Maria Goreti, membro da direção da escola, explica que “neste espaço milhares de sem terra podem ter acesso a educação, que foi historicamente negada aos camponeses e à classe trabalhadora”.

A dirigente diz ainda que quem aqui estuda “apropria conhecimento para caminhar num processo de emancipação, de libertação”: “As pessoas vêm aqui estudar e depois regressam às suas áreas de assentamento [cooperativas plurifamiliares de produção agrícola] e aplicam no campo brasileiro aquilo que aprenderam”, conta.

Acrescenta que “os eixos de conhecimento aprofundados na escola estão ligados à História, à Filosofia, à Teoria da Organização, – onde entram as lutas da reforma agrária e também os processos de agroecologia – à questão agrária e à luta dos camponeses da classe trabalhadora”.

E há também “temas transversais a estes eixos, como a Cultura, a Literatura, as Artes, ou as relações entre homens e mulheres”: “A escola propõe também uma forma diferente de nos relacionarmos, que não está vinculada a uma visão de mercadoria, que vê o ser humano numa perspetiva livre”, diz.

Na Florestan Fernandes não se vai às compras. Vive-se, diz-se por aqui, de trabalho e de solidariedade. As tarefas dividem-se – todos fazem tudo –, come-se o que a terra dá e recebe-se alguns excedentes de assentamentos próximos. Hoje o almoço é arroz, feijão, farinha de mandioca, salada de alface e tomate e três cubos de carne por pessoa.

A frequência das aulas é gratuita mas os alunos assumem que o que levam daqui tem que ser semente para germinar na terra e voltar à casa: “Você tem um compromisso com a comunidade, com o movimento social a que pertence ao aprender conhecimentos aqui. Esses conhecimentos têm que retornar”, explica Maria Goreti.

Na verdade, percebe-se nas palavras de todos, a escola é apenas o espaço onde se faz formação. O movimento real, a transformação do conhecimento – a revolução – germina aqui mas acontece na terra.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Os netos dos escravos veem um Brasil com racismo velado e cinco séculos de problemas por resolver

A comunidade do quilombo do Campinho da Independência, onde vivem 450 descendentes de escravos negros brasileiros, perto de Paraty, no estado do Rio de Janeiro, aplaude o Presidente Lula mas defende que os negros do Brasil ainda não são livres.


Os 13 núcleos familiares que se distribuem pelos cerca de 280 hectares de terra do quilombo são todos descendentes de três escravas negras que vieram, no século XIX, trabalhar para uma fazenda: A vovó Antonica, a vovó Camila e a tia Maria Luísa.

As crianças que correm no pátio perto da associação de moradores no intervalo das aulas são a sexta geração deste quilombo.

À volta é tudo verde, fresco. Os caminhos são de terra. Da tradição pouco sobra para além da cor da pele de quem aqui vive, da forma do artesanato e da casa onde ele é vendido. A maioria das famílias vive em casas de tijolo sem acabamentos e com antenas parabólicas.

A escola e a igreja são construções convencionais. Antes de se chegar ao campo de futebol de terra batida há um pedaço muro onde desenharam um negra com um filho perto e onde escreveram: “Eu peço a Deus que ilumine minha comunidade trazendo mais cultura e menos malandragem”.

Wagner do Nascimento, ou Waguinho, presidente da associação de moradores, conta que “depois da conquista da terra [o Campinho obteve a titulação coletiva das suas terras apenas em março de 1999, depois de mais de 30 anos de luta], a luta é para frutificar”.

O desafio do quilombo hoje é “desenvolver a comunidade com base na agricultura familiar, no artesanato, no manejo dos recursos naturais conscientes e promover a sustentabilidade do grupo”, diz.

Metade das pessoas do quilombo vive das atividades comunitárias que aqui se desenvolvem, do cultivo da terra ao restaurante, passando pela casa da farinha ou pelas guiadas a turistas.

Esta terra dá, garante Waguinho, “antes de comida, liberdade, porque não há cercas, não há muros. A terra permite à comunidade relacionar-se com a Mata Atlântica e isso ajuda o nosso trabalho sócio-ambiental”.

O presidente da associação de moradores considera que a luta tem sido grande, mas reconhece que as conquistas também: “A comunidade tem-se desenvolvido bastante. Hoje temos saneamento básico e, embora a energia elétrica não seja a 100 por cento, já chega a algumas casas”, diz.

Mais de metade da comunidade vive desta terra e quem trabalha fora, acrescenta Waguinho, “está a organizar-se para encontrar formas de trabalhar aqui”.

O quilombo é porta para a liberdade e arma para a luta contra a discriminação: “A população negra foi sempre a mão-de-obra do desenvolvimento do Brasil, muitas vezes escrava. E o nosso grande desafio é que isso mude. Queremos combater o racismo velado que existe no Brasil. Queremos o desenvolvimento a partir do nosso conhecimento, da nossa história de luta”, defende.

Wagner do Nascimento diz que “houve alguns avanços” durante os dois mandatos do Presidente Lula da Silva e que no próximo domingo vota “na continuidade” [Dilma Rousseff, a candidata apoiada pelo Presidente sindicalista], mas aponta falhas que decorrem, considera, da impossibilidade de “em oito anos se resolverem problemas com cinco séculos”.

sexta-feira, novembro 26, 2010

Lula da Silva e o medo de deixar de ser cool ou o barato sai caro e está bem à vista

O Secretário Nacional de Segurança Pública do Governo de Lula da Silva em 2003, Luiz Eduardo Soares, defendeu, em entrevista à Lusa, que o Presidente “perdeu uma oportunidade histórica para resolver os problemas de segurança do país”.

Para o coautor do livro que inspirou o filme “Tropa de Elite” – que ilustra um quotidiano violento e corrupto no Batalhão de Operações Especiais do Rio de Janeiro – “é uma deceção muito grande que Lula da Silva tenha perdido a oportunidade de se desfazer da herança da ditadura militar [1965-1985] e passar o Brasil a limpo na área da segurança pública, pondo fim à tortura”.

“O Brasil herdou da ditadura problemas da maior gravidade no plano das estruturas organizacionais. Era imperioso que se estendesse o processo de transição democrática às polícias e às instituições afins para que pudéssemos começar o processo de atualização das polícias, para que elas se convertessem em instrumentos democráticos, ao serviço do estado democrático, de direito, de cidadania, cumprindo em fim suas missões constitucionais”, explicou.

Luiz Eduardo Soares foi um dos coordenadores do plano que integrou o programa de Governo de Lula da Silva e que o Presidente decidiu depois não levar avante.

“Tratava-se de uma reforma profunda das instituições através de mudanças na Constituição. O compromisso era eliminar a tortura, as execuções extra-judiciais, a brutalidade policial, o desrespeito aos direitos humanos, valorizar o trabalhador policial como cidadão, como profissional”, acrescentou.

Em agosto de 2003, diz, todos os Governadores dos 27 Estados do país tinham assinado o termo de compromisso com as mudanças, o chamado “Pacto pela Paz”. E então o Presidente recuou: “Lula decidiu não avançar com esta mudança porque os seus conselheiros avaliaram que ele se tornaria o grande protagonista da segurança pública no Brasil”, considera.

“O Presidente não quis assumir o início de um longo processo, cujos resultados seriam colhidos ao longo de anos, já com os seus sucessores, e cujos custos seriam pagos por si; os custos de resistência, de necessidade de ajustes, normais num processo de mudança”, acrescentou.

O antropólogo defende que isto aconteceu também porque “hoje a situação é muito confortável”, sendo que a Presidência não tem responsabilidades diretas sobre a questão da segurança e isso, diz, “permite-lhe lavar as mãos, deixar a bomba no colo dos governadores e, quando a situação se torna explosiva – dramática – aparecer de uma maneira muito simpática, muito solidária, a prestar ajuda”.

“Os Presidentes anteriores avaliaram que esta situação, apesar de muito mais nociva para o país, é muito mais confortável politicamente. E Lula acabou por fazer o mesmo”.

“O problema do Rio já não é o tráfico de droga, são as as milícias", diz inspirador de "Tropa de Elite"

O maior problema de segurança do Rio de Janeiro são as milícias que ocupam o lugar dos traficantes, considera Luiz Eduardo Soares, ex-membro do Governo de Lula da Silva e coautor do livro que inspirou o filme “Tropa de Elite”.

Entrevista publicada a 22/09/2010

Em entrevista à agência Lusa, o antropólogo e secretário Nacional de Segurança Pública em 2003 anunciou que o novo contexto será também o cenário do livro e do filme “Tropa de Elite 2”, com lançamento e estreia agendados para outubro no Brasil, o mês das eleições gerais no país, marcadas para dia três.

Segundo Luiz Eduardo Soares, o problema retratado em “Tropa de Elite”, sobre o quotidiano violento e corrupto no Batalhão de Operações Especiais do Rio de Janeiro, atinge mais de uma centena das favelas na cidade – mais do que as que são controladas pelo tráfico de droga.

“São grupos de polícias, ex-polícias, alguns bombeiros e alguns civis que se organizam, invadem uma área controlada pelo tráfico de drogas, matam os traficantes ou expulsam-nos e substituem-nos, reproduzindo as suas práticas, desde o tráfico de drogas até as outras práticas nefastas, conhecidas em todo o mundo, típicas de máfia”, contou o autor.

Estes grupos, acrescentou, “cobram taxas sobre todas as transações comerciais, transportes, residências, promovem migrações ilegais, apropriando-se de terras públicas e vendendo-as ou alugando-as, controlam Internet, televisão por cabo…”.

Se algum residente nestas áreas ocupadas se recusa a pagar, “é exemplarmente castigado”, descreveu: “E aí temos torturas de todos os tipos e execuções públicas de morte. É uma justiça própria, terrível, selvagem, despótica, que é exibida para a comunidade como forma de aterrorizá-la.”.

Luiz Eduardo Soares considera que estes homens são muito mais perigosos do que os traficantes de droga, que são “cada vez mais jovens – morrem com 16, 17, 18 anos –, não têm experiência, nunca saíram da favela, não sabem andar pela cidade, não sabem o que fazer com o dinheiro”.

Estes homens “têm 30, 40 anos, são profissionais treinados nas polícias, conhecem os caminhos todos do Estado, e já têm um plano, que está em execução, típico do crime organizado”, afirmou.

O antropólogo disse ainda que as milícias estão assentes sobre uma “perigosíssima e violenta” estrutura de poder com legitimação democrática.

“As milícias não cresceram senão à sombra do poder. Contaram não só com a negligência do poder, mas com a sua cumplicidade ativa. Elas são parte do poder, que atua condicionado pelo peso dos votos”, acrescentou.

sexta-feira, novembro 19, 2010

Amor, faca e alguidar

Uma casa, um armazém de têxteis, oito anos de um amor que ela sentia bonito, impreterível, visceral. Palavras tremidas da mulher que soluça de frente para uma juíza firme.

“Um homem bom, um homem muito meu amigo, muito bom para mim”.

Palavras tremidas da mulher que soluça de costas para uma audiência que chora com ela.
“O meu marido” no meio das frases todas, a dar consistência, a fazer eco, a fazer doer a dor do amor dela. “O meu marido”.

E depois as chaves da carrinha da mão dele para a mão dela. Explicação nenhuma, silêncio, ausência.

“Ao telefone disse-me que metesse na minha cabeça que não me queria mais, que não voltava para mim. Não sei explicar como fiquei”.

Os dias depois do dia das chaves da carrinha da mão dele para a mão dela foram todos maus.

“Eu não estava bem. Não tinha sentido de vida sozinha, sem o meu marido ao meu lado. Não conseguia viver sem uma explicação. Ia todos os dias sozinha ao armazém. Ia vê-lo, mesmo de longe. Umas vezes tentava falar com ele, outras vezes não. Nunca me aproximei muito porque de cada vez que ele me via mandava-me embora, fechava-me a porta”.

Um dia ele – “o meu marido, o meu marido” – ameaçou-a de morte. Mas “jamais seria capaz, jamais seria capaz, ao que ele gostava [dela], jamais seria capaz, o meu marido”.

O dia da véspera daquele dia foi pior, muito pior.

“Deitei-me com o revólver carregado que o meu marido tinha deixado em casa. Não sei quantas balas tinha, nunca tinha pegado numa arma. Levei a noite toda a pensar em matar-me, em matar-me, matar-me, matar-me”.

Mas jamais seria capaz, jamais seria capaz. Ao que ela o amava, ao marido, jamais seria capaz. De manhã levou a pistola na mão, carregada, à vista. Ia dizer-lhe amor. “Ou ele me explicava o motivo da separação, ou eu me matava”. Era só isso.

Mas depois não foi. Foram quatro tiros à queima-roupa e o homem morto.

“Quando me viu disse-me ‘vai-te embora daqui, minha grande puta’. E eu não disse nada, disparei”.

sexta-feira, novembro 12, 2010

Na favela, o partido é Paraisópolis

Na favela de Paraisópolis, nos subúrbios de São Paulo, tem crescido ao ritmo exuberante do Brasil de Lula da Silva. Nas ruas há cores garridas, muita vida, muita pressa, muito orgulho. Na favela, o partido em que se vota é Paraisópolis.


Vistas de cima, as ruas próximas da União de Moradores desta comunidade dos subúrbios de São Paulo parecem uma pista de dança. Debaixo do emaranhado de fios elétricos que abastece os 100 mil moradores da comunidade, há música, ritmo e um gingar de centenas de corpos.

A festa é tanta que, diz-se por aqui, o aparato ostensivo do luxuoso bairro do Morumbi, que se avista ao longe, chega a ter inveja.

O presidente da União de Moradores, Gilson Rodrigues, conta que a comunidade “cresceu 20 anos em dois”: “Todas as semanas abre um comércio novo, todos os dias há um contacto de pessoas querendo montar um projeto”, diz.

“Quando aqui cheguei, [em 2001] os maiores problemas eram de infraestruturas. Era tudo lama. Não havia asfalto, havia gangues – [as pessoas] da rua de baixo não podiam subir para a rua de cima – havia um dono da favela, que às vezes se metia em discussões de marido e mulher, tudo o que acontecia tinha que ser resolvido com essa pessoa”, conta.

Os moradores, diz, “não tinham liberdade de circular, de se expressar”. Mas hoje, garante, a favela deu um salto, sobretudo “graças à união das pessoas, à mobilização, à intervenção e participação”.
“Na União de moradores, por onde passam por dia cerca de 1 500 pessoas há, à disposição de todos, telecentro, biblioteca, cozinha comunitária, a escola do povo, salas de informática, uma rádio comunitária, um jornal comunitário, um site e um espaço jovem, onde se desenvolvem inúmeras atividades”, ilustra.

A associação das mulheres de Paraisópolis [quase 50 por cento dos moradores da comunidade são mulheres] também nasceu na União e funciona hoje em pleno, a pensar políticas públicas para as mulheres.

Antes de Lula da Silva, Paraisópolis tinha oito por cento da população abaixo da linha da pobreza. Hoje, dois mandatos depois, Gilson não tem um dado concreto, mas diz ter a certeza de que o número diminuiu bastante.

“À medida que a população conseguiu ter acesso a recursos, ela montou negócios. Há oito mil comércios na favela. Você vê aqui pessoas que conseguiram, a partir dos apoios do Governo – apoio financeiro e incentivos à formação – avançar na vida. À medida que a pessoa vai ganhando oportunidades ela vai conseguindo que os seus caminhos sejam melhores”, afirma.

O ânimo da comunidade, diz, é grande. E isso percebe-se bem no ritmo que se sente nas ruas. Em poucos anos, garante Gilson, “isto vai transformar-se numa nova Paraisópolis. E é assim que queremos que se chame, para que não sobre mais nenhum preconceito em relação à comunidade”.

Apesar do caminho trilhado, os desafios, reconhece, ainda são grandes: “Há dez escolas a funcionar mas há ainda 5 mil crianças que não vão às aulas e cerca de 15 mil pessoas analfabetas. Precisamos de um posto de saúde que possa servir convenientemente a comunidade”.

Por isso, e porque o orgulho que se sente nas ruas, pelas lojas, é o mesmo que sai da boca do presidente da União de Moradores, em Paraisópolis vota-se em quem dá mais: “Votamos em quem olhar mais para a comunidade, o nosso partido é Paraisópolis”.

Dilma a cabeça, Lula o pescoço


in "O cartoon do António", Expresso

Jacson Garrett da Costa é publicitário. Hoje está à beira do rio Paraguai à espera do barco para ir pescar e fala de um Brasil que recomeçou pelas mãos de um Presidente que “mudou o conceito de falso primeiro mundo”.

O empresário está hospedado na pensão do maior restaurante do à pequena comunidade Porto da Manga, em Corumbá, junto à fronteira com a Bolívia, no Estado do Mato Grosso do Sul.

Até 2007, quando o programa “Luz para todos”, do Governo, permitiu às cerca de 40 famílias aqui residentes terem acesso a energia elétrica, era aqui que estava o único gerador do bairro.

Hoje a calma do curso do rio mantém-se e diz bem com a calma das pessoas que vivem à volta dele, mas é fácil perceber que a vida mudou. Hoje já não se usa lanternas no Porto da Manga.

Agora há sempre água fresca em casa. Também por isso, diz Jacson, “com Lula houve um recomeço”. Talvez não para o seu negócio, “porque a corrupção é muito boa para o meio publicitário”, mas para o Brasil, “que é hoje visto com outros olhos pelo mundo inteiro”.

“Lula pensou no recomeço do Brasil. A história mostrou que as principais propostas dele – combater a fome e olhar para os países emergentes do nível do Brasil – estavam certas. Ele mudou o conceito de falso primeiro mundo”, argumentou.

Jacson sente que Lula percebeu que “primeiro era preciso dar o pão aos brasileiros”: “Acho era preciso combater um problema real no Brasil: a fome, a miséria, que hoje estão a acabar. O avanço é grande nesse campo”, diz.

“Hoje o Brasil já não é só conhecido lá fora pelas bundas das meninas das escolas de samba. Já é conhecido porque é um país confiante e Lula tornou-se uma pessoa respeitada no mundo”.

Gosta de Dilma Rousseff, a mulher a quem Lula confiou o Brasil: “Dilma é um período novo. Acredito que ela é um pouco diferente de Lula, que sempre foi, no contexto local, revolucionário. Diria que Dilma é uma marxista moderna”, afirmou.

O publicitário vê “verdade" na imagem da guerreira e confia no trabalho que ela será capaz de fazer, espera, com alguém a conduzir a dança: “Que Dilma seja a cabeça e que Lula seja o pescoço”.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Bolsa Família: uma lata de leite foi muitas vezes tudo o que teve para dar aos filhos

Cláudia nasceu na favela de Paraisópolis, em São Paulo, onde ainda vive. Com o apoio que recebe do Governo compra uma lata de leite. Houve alturas em que era tudo o que tinha.


Cláudia tem 23 anos e é mãe de dois filhos. A casa da família é um quarto com um beliche à esquerda, uma televisão atrás da porta e um fogão ao fundo. Fica perto do centro da favela, logo depois de duas estradas de alcatrão, uma de terra batida e outra de cimento. Cada uma mais estreita do que a outra. Depois há um muro tosco e alto, de betão, que afunila e conduz ao portão enferrujado. A porta da casa dá para um pátio cruzado por cordas com roupa estendida e pontuado com brinquedos de criança e o ladrar de um cão.

Enquanto cozinha, o que também faz para viver, Denis explica que não tem emprego certo e que nas alturas em que está desempregado “a família passa aperto”.

Cláudia faz as contas: “Quando estamos os dois a trabalhar é ótimo. Em média, o meu salário e o dele dá 1 200 reais (524 euros). 250 reais (109 euros) vão para o aluguer da casa, 300 (131 euros) são para despesas com água, luz e gás. Só com um ordenado passamos muito aperto”, diz.

Com Lula da Silva na Presidência, garantem, “a vida mudou bastante”. Se Dilma Rousseff, a candidata apoiada pelo atual presidente, subir ao poder, como esperam, “a vida vai continuar a melhorar”.

Cláudia acha que depois de Lula, “até o emprego ficou mais fácil”: “Como recebo Bolsa Família [o programa de distribuição de rendimentos do Governo, que beneficia hoje quase 13 milhões de famílias brasileiras] pude fazer um curso profissional e recebi logo uma proposta de emprego. Por acaso rejeitei-a porque já trabalhava na União de Moradores”, conta.

A família recebe do Governo 20 reais (9 euros) por mês para ajudar nas despesas com alimentação e escola de Caíque, de 4 anos, e Eduarda, de 2. Visto de fora parece pouco. Visto de dentro, já foi o tudo o que Cláudia teve para dar aos filhos.

“Com esse dinheiro você compra uma lata de leite, mas ainda bem que ganhamos alguma coisa. Quando comecei a receber ainda não estava casada. Só tinha os dois filhos, e quando não estava a trabalhar foi um auxílio, tinha alguma coisa para dar às crianças. Para mim está a valer até hoje. E sempre que recebo o dinheiro tento gastá-lo com os meus filhos”, diz.

Aqui em casa vota-se em Dilma Rousseff por “representar continuidade em relação ao trabalho de Lula da Silva”. Cláudia espera que, subindo ao poder, a agora candidata olhe pelo acesso dos brasileiros mais pobres à Educação Superior e à Saúde.

segunda-feira, outubro 25, 2010

Intervalo breve no Brasil ou Almada e a luta de punho erguido, com tinta

Em Almada, a luta política do PCP ainda passa, a tinta de cor, pelos muros da cidade. Para a oposição, isto é política suja. E há mesmo quem tenha pintado de branco os murais que tinham cor e começado uma outra guerra.

Fotografia de Mário Cruz/agência Lusa

Miguel Casanova, do PCP de Almada, fez as contas: “O partido deve ter 12 ou 13 murais, com entre quatro e cinco metros, pintados em todo o concelho”. As pinturas, acrescentou, são tradição democrática, um direito enunciado na Constituição da República e no regulamento municipal, e uma voz que fala alto, para chegar a todos.

“A pintura de murais é mais uma forma de o PCP mostrar as suas ideias e as suas propostas, de lhes dar visibilidade”, explicou. O dirigente afirmou ainda que “nenhum” dos desenhos é feito em propriedade privada ou em edifícios históricos: “Embelezamos muros públicos e fomentamos a consciência política”, defendeu.

Antes da tinta, contou, há organização e discussão sobre o tema da luta a desenhar. Às vezes os murais são comemorativos, como o desenho de Lenine, pintado ao lado da capela da Ramalha, no Pragal, outras são atuais, e de protesto, de anúncio de luta contra outras batalhas, como o que está pintado a caminho do Monte da Caparica.

Todos os murais do PCP e da JCP na cidade têm sido cobertos por tinta branca.


Em setembro, na Assembleia Municipal de Almada, o deputado Bruno Dias anunciou que o partido ia avançar com um procedimento criminal contra algumas pessoas ligadas à JSD, encontradas a destruir murais comunistas.

A liberdade, afirmou, “é para exercer e para defender, e a lei é para cumprir na defesa dos direitos, liberdades e garantias que a Constituição da República consagra”.

Miguel Casanova troca por miúdos: “Decidimos que restauramos todos os muros que forem pintados de branco e que pintaremos mais um por cada desenho que tenha sido danificado”.

E isso é claro em todas as pinturas feitas agora de fresco, onde o argumento se repete em verso, nas palavras do poeta José Carlos Ary dos Santos:

"E a cada novo assalto
cada escalada fascista
subirá sempre mais alto
a bandeira comunista”.


Isto, dizem os comunistas, “não se trata de guerra, trata-se de defender o que é do partido”.

David Campos, da Juventude Social-democrata, não assume qualquer ligação com a tinta branca por cima das cores comunistas, a que chama, no entanto, “limpeza” e com a qual concorda: “Pintar murais é uma forma vergonhosa de se fazer política”, disse.

“Sujar espaço que é de todos com ideias que são apenas de alguns. É falta de respeito pelos cidadãos”: “Acho que a liberdade e a luta não pertencem a um partido nem a um mês. E a liberdade de um acaba quando começa a liberdade do outro”, argumentou.

Além disso, defendeu, “não se percebe de que forma é que a promoção da Festa do Avante! defende os direitos dos trabalhadores”.

O militante considera-as “moralmente condenáveis” por acreditar que “há outras formas de chegar às pessoas”: “Isto é política fácil”, argumentou, e foi mais longe: “Consideramos que a lei precisa de ser revista neste campo. Vamos levar este desafio à Assembleia da República”.

domingo, outubro 24, 2010

O Brasil da banca de peixe

Bibiane Pinheiro tem uma banca de peixe à beira do rio Pantanal, em Corumbá, Mato Grosso do Sul. Acha que Lula foi bom para a vida dos brasileiros mas está preocupada com os problemas que a natureza tem trazido.



Tem esta banca no Porto Geral, de onde quase se avista a vizinha Bolívia, desde o ano 2000. Só trabalha com peixe fresco, mas vende “do peixe nobre até ao peixe mais simples”.

Os dois mandatos do Presidente Lula, diz, “foram muito bons para o Brasil e para os brasileiros”, mas a vida em Corumbá é dura e a venda de peixe é cada vez mais difícil.

“Há cinco anos atrás havia muita fartura de peixe. De há dois anos para cá tivemos um problema com a natureza e há cada vez menos quantidade. O custo da pesca está muito mais alto. O peixe chega muito caro ao consumidor”, explica.

Ainda assim, acrescenta, nem tudo é novo. “Para nós aqui no Mato Grosso do Sul, que é, como se diz, o fim do mundo, na fronteira com a Bolívia, tudo é mais caro. O óleo é mais caro, a gasolina é mais cara, os alimentos chegam aqui caríssimos. O custo de vida é muito alto”, acrescenta.

Hoje o barbado e a piranha custam dez reais o quilo (4,60 euros), o pintado, a dourada e o pacu, que são peixes nobres, custam 15 (6,90 euros).

Viver do que vende à população de Corumbá, cerca de 100 mil pessoas, é muito difícil: “Também vendemos peixe à população, mas quem consome mais são os turistas, eles é que nos ajudam”, diz.

Lula coordenou um Governo “muito bom para o país”, fez “diminuir muito o custo de vida dos brasileiros” mas o próximo Presidente, defende, “tem que olhar pela segurança e pela saúde do Brasil”.

À espera de que Dilma seja a cabeça e Lula o pescoço

Jacson Garrett da Costa é publicitário. Hoje está à beira do rio Paraguai à espera do barco para ir pescar e fala de um Brasil que recomeçou pelas mãos de um Presidente que “mudou o conceito de falso primeiro mundo”.

O empresário está hospedado na pensão do maior restaurante do à pequena comunidade Porto da Manga, em Corumbá, junto à fronteira com a Bolívia, no Estado do Mato Grosso do Sul.

Até 2007, quando o programa “Luz para todos”, do Governo, permitiu às cerca de 40 famílias aqui residentes terem acesso a energia elétrica, era aqui que estava o único gerador do bairro.

Hoje a calma do curso do rio mantém-se e diz bem com a calma das pessoas que vivem à volta dele, mas é fácil perceber que a vida mudou. Hoje já não se usa lanternas no Porto da Manga.

Agora há sempre água fresca em casa. Também por isso, diz Jacson, “com Lula houve um recomeço”. Talvez não para o seu negócio, “porque a corrupção é muito boa para o meio publicitário”, mas para o Brasil, “que é hoje visto com outros olhos pelo mundo inteiro. Lula pensou no recomeço do Brasil. A história mostrou que as principais propostas dele – combater a fome e olhar para os países emergentes do nível do Brasil – estavam certas. Ele mudou o conceito de falso primeiro mundo”, argumentou.

Jacson sente que Lula percebeu que “primeiro era preciso dar o pão aos brasileiros”: “Acho era preciso combater um problema real no Brasil: a fome, a miséria, que hoje estão a acabar. O avanço é grande nesse campo”, diz.

“Hoje o Brasil já não é só conhecido lá fora pelas bundas das meninas das escolas de samba. Já é conhecido porque é um país confiante e Lula tornou-se uma pessoa respeitada no mundo”.

Gosta de Dilma Rousseff, a candidata que Lula apresentou ao país: “Dilma é um período novo. Acredito que ela é um pouco diferente de Lula, que sempre foi, no contexto local, revolucionário. Diria que Dilma é uma marxista moderna”, afirmou.

O publicitário vê “verdade na imagem da candidata do Partido dos Trabalhadores” e confia no trabalho que ela será capaz de fazer. Tem, no entanto, uma esperança: “Que Dilma seja a cabeça e que Lula seja o pescoço”.

Lula, pai dos pobres, mãe dos banqueiros, fascínio de todos

Ao longo da exuberante avenida Paulista, cartão postal da capital de negócios do país, Lula faz sorrir quem fala dele. O presidente sindicalista deixa um Brasil melhor aos olhos da maioria dos brasileiros, independentemente do tamanho das suas carteiras.

Na rua Augusta, em São Paulo, perpendicular ao brilho dos edifícios imponentes das multinacionais, dos saltos altos e dos fatos irrepreensíveis, Lúcia, 54 anos, fala junto à sua banca de lenços de senhora, gorros e bugigangas.

“Se Lula fosse candidato, votaria nele de novo. Mudou muita coisa no Brasil. Em termos de pobreza, o pobre começou a viver com mais dignidade. Hoje o pobre come melhor”, diz.

Lúcia vive sozinha com 600 a 800 reais por mês (274 a 365 euros). Com isso paga “todas as contas”. Diz que vive com dignidade porque “hoje os preços estão praticamente iguais ao que estavam quando Lula assumiu a presidência, há oito anos”, mas, na verdade, diz que vive “praticamente na mesma”.

Com sotaque baiano diz ainda que “é preciso melhorar a Saúde” mas acredita que “se o próximo presidente do Brasil continuar tudo o que Lula tem vindo a fazer, o Brasil vai ficar bom”.

Mais perto do luxo, do brilho, da exuberância e da velocidade, Márcio Alves, paulistano, 32 anos, agente cultural, acha que o Partido dos Trabalhadores, do Presidente Lula, “está a fazer um bom trabalho no Brasil”.

“Os pobres, no geral, puderam comprar carro, a inflação baixou, tudo deu uma melhorada”, diz. Márcio vive com a mulher e com o filho. Vive bem, diverte-se, vai ao teatro. Diz que é razoável viver em São Paulo com dois mil reais por mês (914 euros).

Acha que o próximo Presidente “devia dar mais oportunidades às pessoas mais humildes, pensar mais nos estudos do povo brasileiro para combater a violência, para deixar o Brasil melhor”.

Dentro de um impecável fato azul-escuro, Cláudio Lima, 54 anos, fuma um cigarro à porta do banco em que trabalha. Não tem dúvidas de que vive num país melhor.

“Podem acusar o Lula de ser assistencialista, mas a redistribuirão de rendimentos melhorou [a vida das pessoas]. Acho que o Brasil melhorou também devido à conjuntura mundial”, diz. Os pobres, diz, vivem melhor agora. Não tem, no entanto, a certeza de isso seja apenas obra de Lula da Silva. Para o bancário, é possível viver-se “razoavelmente” em São Paulo com dez mil reais por mês (4 570 euros).

domingo, outubro 17, 2010

As classes do edifício sem classes não veem um Brasil menos desigual

Astrid e Suzi vivem em São Paulo, no Copan, que o arquiteto Oscar Niemeyer projetou na década de 50 para ser um edifício sem classes. Uma vive no maior apartamento do prédio, outra no menor. Visto daqui, o Brasil não está menos desigual.


Astrid já passou dos 70 anos e vive sozinha no maior apartamento do Copan há mais de 30, com o mesmo conforto: “Tenho três quartos, uma sala, duas casas de banho, cozinha, área de serviço, quarto e casa de banho de empregada. São 216 metros quadrados”, conta.

“Viver num edifício destes é como viver numa cidade do interior. O Copan é uma cidade de 5 mil habitantes. É óbvio que não és amigo de toda a gente, é óbvio que tens problemas, mas há algumas características dos grupos que se formam ao longo do tempo que tornam o Copan muito parecido com uma cidade menor”, acrescenta.

A psicóloga aposentada não acha que a sua vida tenha mudado muito, embora considere que o Brasil mudou. As diferenças, diz, não têm diretamente que ver com a governação do Presidente Lula da Silva. “Acho antes que as mudanças têm que ver com um conjunto de medidas que ocorreram num momento histórico oportuno. E parece-me que muitas delas têm um viés muito importante”, diz.

Para Astrid, não há dúvidas de que é preciso diminuir a pobreza no Brasil mas “isso não se faz dando às pessoas dinheiro a troco de filhos, faz-se com educação ou então cria-se mendigos para o resto da vida”.

Por isso, sustenta, vai votar em José Serra, candidato do Partido da Social Democracia Brasileira, “um homem com formação e com princípios”.

Suzi não passou dos 30 há muito tempo e vive há quatro anos no apartamento mais pequeno do Copan, com o marido e com o filho a cumprir um sonho de adolescente.

“Existe um certo deslumbramento com o Copan, dá um certo estatuto, sim. No meu caso nem há grande razão para isso, que moro num espaço de 26 metros quadrados, mas ainda assim gosto, orgulho-me”, conta.

A professora acha que “dizer que o Brasil está um país menos desigual seria um exagero” porque “não é isso que se vê quando se sai à rua e se olha para a quantidade de gente que não tem onde dormir”.

Com o Governo Lula sentiu “mais estabilidade, mais segurança” porque viu no Presidente “a representação do povão, o fim dos magnatas na política”. Ele foi o Presidente que ela esperava. A sua vida, diz, está mais ou menos como dantes, há meses de mais aperto, outros de menos, mas nada mudou radicalmente.

domingo, outubro 10, 2010

Warley é pirata. A culpa é de Lula da Silva.

Warley Costa está vestido a rigor e tem os olhos pintados de preto. De chapéu na cabeça e espada na mão, é pirata e guia turístico na cidade colonial de Paraty, no Estado do Rio de Janeiro. A culpa, diz, é de Lula da Silva, que o incentivou a estudar.


As visitas guiadas começam na praça de Santa Rita – “um cartão postal de Paraty, construído em 1722 pelos escravos libertos da época” – ou no mar que invade os largos blocos de calçada das ruas levemente onduladas e sem fim ao fundo, sempre que a maré sobe.

“Era também aqui que na época eram comercializados os escravos, o café e o açúcar. O chafariz que tenho ao meu lado era usado pelos escravos para abastecerem as casas de água”, conta.

Warley diz que estar em Paraty é poder fazer uma viagem no tempo. A cidade, garante, “é o conjunto arquitetónico mais bem conservado do país”. Os 30 mil habitantes vivem do turismo e da pesca.

Visto pelos olhos pintados de preto, o Brasil teve em Lula da Silva o seu melhor presidente: “Há menos fome, ninguém apostou na Cultura como Lula e ele deu também às pessoas muitos incentivos para estudarem”, defende.

Warley é artista de rua em Paraty desde 2004 porque o programa governamental de distribuição de rendimento Bolsa Família – que lhe dá 170 reais (78 euros) por mês para ajudar na educação e na alimentação dos dois filhos pequenos – lhe permitiu fazer um curso de teatro gratuito. A vida avança, as pessoas têm mais trabalho, mais formação, dão melhores condições às crianças.

“Tenho 32 anos e dois filhos, um de três anos, outro de dez. Com o dinheiro do Governo compro material escolar para o mais velho, roupa, alguma coisa de que ele precise. Ao mais pequeno compro frutas, legumes para que ele possa ter uma alimentação mais variada”, conta.

Nas eleições presidenciais, Warley vai anular o voto porque Lula não se recandidata e porque “o Brasil não se cura da corrupção”. O artista não encontra uma solução para o problema mas tem uma ideia muito clara sobre a sua origem.

A culpa, diz, é da semente portuguesa, que ficou aqui ao sol: “Na época da colonização portuguesa do Brasil vieram para cá os degredados, os criminosos, a escória. E são essas pessoas que continuam no Governo brasileiro até hoje e roubam o povo”.

sábado, outubro 09, 2010

Eris trabalha numa fazenda e acha que Lula olhou para as duas partes do Brasil

Eris Gomes trabalha “para o patrão” há dez anos, numa fazenda no Pantanal, no Estado do Mato Grosso do Sul. De trator encostado à beira da Estrada Parque, conta que Lula da Silva foi muito bom para os pobres.


O operador de trator esteira diz que não está “muito por dentro da política”, mas considera que ao trabalho de Lula da Silva como Presidente do Brasil “é preciso tirar o chapéu”.

“O Brasil mudou muito. O Lula trabalhou bem. Não puxou só para o lado das classes altas. Foi um Governo que olhou para as duas partes. Foi um plano muito bom para os pobres”, disse.

Aqui, o Presidente fez chegar a energia elétrica, com o programa “Luz para todos”, que beneficiou, de acordo com números oficiais, mais de 11 milhões de brasileiros dos meios rurais.

Agora as coisas são mais fáceis. A vida, diz Eris, corre-lhe bem: “No Pantanal você deita-se e esquece-se do mundo. E o ordenado que ganho dá para viver tranquilo”.

Ganha em média 1200 reais (550 euros), sustenta a mulher e a filha, que estuda em Maracaju, a 500 quilómetros. Com o patrão dá-se bem: “Se o virem dizem que é empregado. É gente boa, come na mesa com você, o que você come ele come”.

Para ele, a classe trabalhadora está bastante contente com o Brasil de hoje. Eris tem televisão, telefone e rádio amador, sente-se confortável, satisfeito. O resto que falta, se falta, é preciso perguntar aos patrões.

quarta-feira, outubro 06, 2010

José António acha que Lula conduziu um Brasil que já estava caminhando

José António Nogueira é português de berço e brasileiro de coração. Está no Brasil desde 1954 e considera que as mudanças dos últimos oito anos não foram obra das mãos de Lula, mas passos de um país que já tinha começado a caminhar.


O português, como lhe chamam os que chegam ao alpendre onde agora está sentado, vive em Foz do Iguaçu, no Estado do Paraná, junto à fronteira com a Argentina e com o Paraguai. “É uma cidade bonita, com muito movimento, mas também com contrabando e com uma criminalidade mais elevada do que a do Rio de Janeiro”, conta.

Na casa de madeira onde cheira sempre à comida que ele cozinha para vender para fora a quatro reais o prato (1,80 euros) vivem seis pessoas: ele, a mulher, a sogra, o filho, a nora e o neto. Todos dependem do pequeno negócio, que permite à família “viver bem, ter uma vidinha sossegada”, com dois mil reais por mês (915 euros).

Os oito anos do Governo Lula, diz, não vieram mudar muito este cenário. “Comparando com os outros Governos, o de Lula da Silva foi o que mais combateu o tráfico de droga e o contrabando de mercadorias que se fazia a partir do Paraguai. Por isso a cidade já não mexe como mexia”, afirma.

Ainda assim, considera que não se pode dizer que o Brasil tenha melhorado por mérito deste Presidente. “Ele fez um bom Governo. O Brasil desenvolveu muito na agricultura e na agropecuária. Mas é preciso ver que o Lula pegou num país que já estava caminhando”, disse.

José António trabalha 16 horas por dia. Não tem fins-de-semana, feriados nem folgas. Diz-se feliz com a vida que tem, que não é rica mas é boa.

Discorda da política de distribuição de rendimentos do Governo por achar que “não resolve nada e cria um ciclo vicioso”: “Não dê o peixe ao homem, ensine ele a pescar, que ele aprende a se virar”, argumentou.

Para além disso, defendeu, “no Brasil a saúde ainda deixa muito a desejar”. “A minha esposa precisava de um tratamento que custava 25 mil reais (11400 euros) e o Governo não nos ajudou. No entanto, há uns tempos, só para transportarem uma vez o Fernandinho Beira-Mar [um dos maiores traficantes de armas e droga da América Latina, condenado a quase 30 anos de prisão] gastaram 40 mil reais (18 300 euros)”, contou.

Em outubro o português vai votar em José Serra, do Partido da Social Democracia Brasileira, porque “é um homem mais experiente, mais bem preparado e que vai olhar para a saúde dos brasileiros”.

terça-feira, outubro 05, 2010

Lula acendeu a luz no Porto da Manga e agora vê-se televisão depois de jantar

No Porto da Manga, em Corumbá, onde o Brasil se encosta à Bolívia, já não é preciso ir para a cama cedo. O programa “Luz para todos” chegou em 2007 e agora vê-se televisão depois de jantar.


Na margem esquerda do rio Paraguai, sustento da maioria dos homens das cerca de 40 famílias da terra, sente-se a brisa e ouve-se o barulho das balsas que levam homens e carros para o lado de lá. Os animais são muitos e os sons misturam-se.

A vida, ouve-se na mesa do café, na esplanada do restaurante e pelas casas, melhorou depois de ter chegado aqui o “Luz para todos”, um programa do Governo Lula que já levou energia elétrica a mais de 11 milhões de brasileiros dos meios rurais.

Eliane, Adão e Sebastião vivem no Porto da Manga há mais de 20 anos. Vivem do rio, acordam todos os dias às 05:00. Eliane apanha isco para os pescadores, Adão e o tio pilotam barcos de pesca. Antes de 2007 usavam lanternas e iam dormir muito cedo, “às 19:00 já estava tudo sossegado”. Agora, conta Sebastião, “as pessoas ficam a ver televisão depois de jantar, até mais tarde”.

A luz não trouxe só a comodidade de largar a lanterna e o eco da televisão que acompanha esta conversa. Os pescadores da terra são hoje mais independentes. “Antes, o hotel, o único que tinha gerador de eletricidade, comprava-nos o peixe ao preço da chuva. Eles sabiam – e nós também – que se não vendêssemos o peixe, mesmo que barato, perdíamos tudo o que tínhamos pescado”, explicou.

E claro, acrescentou Eliane, “agora pode guardar-se uma fruta, carne ou comida feita no frigorífico, e isso é melhor”. Esta família paga 77 reais (35 euros) de luz por mês.

Eliane recebe 80 reais (36 euros) do Bolsa Família, o programa de distribuição de rendimentos do Governo: “Ajuda qualquer coisinha, mas não dá para nada. Faço umas comprinhas, pago alguma conta… Vamos vivendo”.

Umas casas ao lado, mais perto do rio, o pescador Vítor, 57 anos, “quase todos vividos entre Corumbá e Porto da Manga”, aplaude os oito anos de Governo de Lula da Silva.


“Ele mudou muito o Brasil, foi um bom Presidente. Quem disser que não está a mentir. Mudou o trabalho, a escola, tudo. Apoiou muito as famílias, ajudou muito a pobreza e trabalhou em benefício dos pescadores, que hoje têm direitos”, argumentou. E com a luz, acrescentou, “a vida aqui mudou 100 por cento. Foi uma maravilha passar a ter água fresca em casa”.

sábado, outubro 02, 2010

Ivaneide sustenta três pessoas com 300 euros por mês, chamaram-lhe dores do crescimento

Ivaneide Gonçalves da Silva vive numa casa exígua, sem janelas, na favela de Paraisópolis, em São Paulo. Aqui cria os dois filhos com um ordenado mínimo por mês. Não recebe ajuda do Governo porque é “apenas pobre, não miserável”.


Por cima da cabeça de quem anda pelas ruas da favela de Paraisópolis há um emaranhado de fios elétricos que abastece os 100 mil moradores da comunidade. Nos fios há festa pendurada, fitas verdes e amarelas ao vento. Muito ao fundo há a elegância do bairro de luxo do Morumbi. À volta há barracões, muito barulho, muita vida e muita pressa.

Na casa de Ivaneide, perto do centro, há menos barulho, uma cozinha pequena, um quarto e um ordenado mínimo (300 euros) para três. “Recebi Bolsa Família [programa de distribuição de rendimentos do Governo que beneficia hoje quase 13 milhões de famílias brasileiras] durante mais de seis anos. Começou com 30 reais (14 euros), depois 45 (21 euros), depois 47 (22 euros), depois cortaram”, conta.

Ivaneide acha que o Bolsa Família “não é sequer um programa para quem é pobre, é um programa para quem é miserável”, que assim que a família ganha algum dinheiro deixa de ser apoiada, embora, acrescenta, “tenha a vantagem de permitir fazer formação profissional gratuitamente”.

Os filhos, de oito e 19 anos, estudam em escolas públicas. Ivaneide trabalha na sede da União de Moradores como cozinheira. “Levanto-me cedo. Quando o meu filho está a estudar levanto-me às 05:30 da manhã. Às 06:00 esperamos o autocarro para ele ir para a escola e depois volto para casa, arrumo o que consigo arrumar e às 07:00 já estou no serviço”.

Os dias, diz, são duros mas já se acostumou, gosta de trabalhar. “É cozinhar para bastante gente, fazer café, cuidar da cozinha, manter tudo limpo, e levar os cafés até às salas de reuniões. Depois vou preparar o jantar, ver o que é preciso fazer em casa. Dificilmente folgo, também faço salgados por encomenda para festas”, acrescenta.

Ivaneide acha que o Brasil de Lula é um Brasil “em parte mudado, porque muitas coisas que antes a gente não tinha agora tem; porque mesmo que as pessoas digam que o Bolsa Família é uma esmola, há quem dependa desse dinheiro”.

Lula da Silva, diz, “foi um ótimo Presidente, que fez o Brasil crescer”.

Ivaneide acha ainda que um jornalista que por ali passou antes para ouvir a sua história e saber do Brasil foi injusto. Ela contou-lhe isto, ele escreveu e no título do texto chamou-lhe “Brasil, dores do crescimento”.

sexta-feira, outubro 01, 2010

As maravilhas de Lula e a mesa ainda muitas vezes vazia

Jucilene tem 33 anos, cinco filhos pela mão, um na barriga, “cada um tem um pai”. Olha para o Brasil do cimo do morro do Vidigal, no Rio de Janeiro. Diz que Lula da Silva, o Presidente sindicalista, melhorou a vida dos pobres mas que a mesa da sua casa continua vazia muitas vezes por mês.

Jucilene tem o cabelo crespo, negro, como a pele, que faz parecer mais viva a t-shirt laranja que veste. Tem um nariz grande, redondo, triste como os olhos, cheios de vergonha.

A família vive numa casa arrumada numa rua estreita, perto do topo do morro do Vidigal, no Rio de Janeiro. A vista é paradisíaca, de luxo, com encanto de telenovela. A vida nem por isso.

Jucilene está desempregada, ajuda o marido, que é artesão, na pintura das pequenas peças de madeira que reproduzem ícones da cidade – dos arcos da Lapa aos bondinhos – e que depois ele vende pelas ruas aos turistas.

Às vezes, ela toma conta de crianças em casa. Por estes dias próximos das eleições, ele trabalha para um partido em campanha.

Numa casa onde comem sete bocas todos os dias entram em média 300 reais por mês (137 euros), 120 são dados pelo programa de distribuição de rendimentos do Governo, Bolsa Família, que beneficia hoje quase 13 milhões de famílias brasileiras. Com o dinheiro que o Governo dá, Jucilene faz “a única coisa que a gente pode fazer, umas compras, o que dá com o que há”. Compra leite ou fraldas para as crianças.

Com Lula da Silva na Presidência, não tem dúvidas, “a vida melhorou”: “Melhorou bastante, não tenho de que reclamar. É bom porque as coisas não estão tão caras”, diz.

Ainda assim, não há nada que Jucilene consiga pôr a mais na mesa do que há oito anos atrás, a mesa continua vazia muitas vezes por mês.

“O domingo em família é triste. Às vezes não há nada na mesa. Às vezes há um arroz e feijão, não há carne. Para mim o domingo não existe. É mais triste do que um dia de semana, não há trabalho, você tem que ficar dentro de casa… Fica triste”
, conta.

Jucilene desce poucas vezes do morro para ir à cidade. Às vezes pelo Natal, mas nem sempre. O Brasil que vê é o que a vista alcança do cimo do burburinho veloz e desengonçado das ruas da favela onde vivem 70 mil pessoas. E é bom, gosta, não consegue sair.

sexta-feira, março 12, 2010

Um bar como qualquer outro (ou a revolução dentro dos olhos)

“Este é um bar como qualquer outro em Bilbau”. Há cerveja, vinho, tapas, chá, cigarros. Há um balcão peganhento e bancos altos que o aconchegam.

“É um bar como qualquer outro”. Tirando os tons da revolução a sair das colunas, “é um bar como qualquer outro”.

Tirando as fotografias dos presos por presumível ligação à ETA ou apologia ao terrorismo, “é um bar como qualquer outro”.

Tirando os mealheiros onde se guarda dinheiro para as famílias dos detidos, é exactamente “como qualquer outro em Bilbau”.

Na verdade, não fosse a força dos argumentos daqueles olhos, passava bem despercebido.


Os políticos olham apenas pelo seu cu. Não podemos eleger aqueles em quem acreditamos porque os partidos são sucessivamente ilegalizados. Não acredito que os bascos venham a ser independentes apenas pela luta política”.

Os argumentos saem dos olhos de um corpo esguio, que os vinca com uns braços enérgicos, delicados mas peremptórios. A voz responde por um nome que inventou e tem 24 anos.

Vivemos sob uma ditadura encoberta, as palavras ainda não servem de nada. Vivemos na democracia que interessa a Madrid”.

Arremessa argumentos. Encolhe os ombros. Estica os femininos braços obstinados que lhe vincam as ideias. Tem fogo nos olhos. Porque é tudo muito óbvio, porque só não vê quem não quer.

“Em todas as lutas pela independência, desde a Irlanda até Cuba, houve um braço armado. Aqui não poderá ser diferente. A ETA vai desaparecer quando deixar de ser necessária, quando as vias políticas puderem ser utilizadas. Agora ainda não”.

A revolução, esta do fogo dos olhos dela, deve fazer-se nas ruas e não tem explicações a dar.

“Isto é um conflito antigo e há vítimas dos dois lados. Ninguém tem que explicar nada a ninguém: há mortos em atentados mas também há muita gente que foi torturada, gente que morreu na cadeia, familiares de presos que morreram em acidentes de carro por terem que se deslocar mais de 300 quilómetros para os visitarem. É um conflito armado, há vítimas”.

Fala das mortes pelo independentismo com desembaraço e aridez. Pontua a indiferença com os ombros que já tinha encolhido uns parágrafos antes deste. Morrer é parte inevitável do caminho até à liberdade, a mulher que não há-de tardar.

“Cada um luta por aquilo defende: seja a essência das festas populares, a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião e de manifestação, a garantia de direitos dos presos políticos. Qualquer coisa. E a revolução é inevitável, mais tarde ou mais cedo”.

Acaba o cigarro e põe a mala ao ombro. Sai da mesa para a rua com a mesma pressa determinada com que acendeu as palavras da sua revolução.

No bar, ainda a música, a cerveja, o vinho, as tapas, chá e cigarros. Ainda o balcão peganhento, aconchegado por bancos altos.

Antes de passar a porta, o corpo esguio e os mesmos braços obstinados sublinham: “É um bar como qualquer outro. Apenas com um mínimo de consciência social”.

quarta-feira, março 03, 2010

A alma e o cu na bandeira basca


Em cima da mesa onde esteve um jantar tradicional basco estão agora pousadas duas mãos que a terra enrudeceu. Entre os dedos grossos, gretados, encardidos, está sempre um cigarro.

Este homem tem mais de 50 anos. Nasceu numa rua “ali ao fundo”, no centro histórico de Hernani, baluarte nacionalista basco com 20 mil habitantes, perto de San Sebastien, – Donostia em euskadi, língua basca – na província de Guipuzcoa.

Estes olhos azuis com rugas tingidas de sol foram parte da luta pela independência que Madrid estanca sem ceder. Agora apenas olham, atentos, as brincadeiras da sua filha e o recorte verde das alfaces que as mãos pesadas plantam e colhem.

“A luta política armada é absurda. Os etarras são os primeiros a não compreender a liberdade. Estás num bar, dizes uma coisa que não lhes interessa, que os desagrada, levas um tiro no cachaço”, defende, gestos teatrais, exagerados; a arma imaginária na sua nuca, e a onomatopeia – pááá, pááá, o som da bala – muito repetida.

Não foi à manifestação que ao cair da noite gelou as ruas do centro histórico com uivos tensos de revolta, frases de ordem e punhos em riste, exigindo a libertação dos presos políticos da terra.

“Estás num bar, dizes uma coisa que não lhes interessa, que os desagrada, levas um tiro no cachaço”, relembra, no espaço de minutos. E a arma imaginária de novo na sua nuca, a mesma onomatopeia – pááá, pááá, o som da bala – a ecoar.

“Há uma manifestação por cada preso. Não me parece que valha a pena ir. Sou nacionalista mas a política não me interessa absolutamente nada”.

A sua ideia está apenas posta naqueles cabelos loiros e naquele recorte verde, reitera. É agricultor. A luta é todos os dias, na horta, para poder comer e beber. O nacionalismo independentista, diz, tem todos os argumentos e merece todo o seu respeito.

Conta com a sua alma e, na verdade, com parte do seu corpo.
“Acredito na independência do meu país. Não somos França nem Espanha, somos bascos. Mas se estou no meio da rua, se me dá vontade, se não tenho outra opção, se cago, se não tenho mais nada, se está uma bandeira à mão – a minha bandeira – agarro-a e limpo o cu com ela”.

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

A história que ele não me contou

Verdes olhos, pequenos, húmidos. Mãos agitadas. Uma história que se insinua em cada movimento, que me provoca. Mas que nunca aconteceu.

«1980. A 28 de Março criava-se a Força de Unidade Popular. A 20 de Abril, as Forças Populares 25 de Abril (FP 25) apresentavam-se ao país, com a publicação de um manifesto.

Mais tarde foram consideradas o braço armado Força de Unidade Popular, organização política de extrema-esquerda que nasceu do descontentamento com aquilo que considerava serem os desvios ideológicos e programáticos em relação ao espírito da Revolução de Abril de 1974»1.

O homem à minha frente sublinha que não sabe do que falo, insiste que não tem nada para me dizer. Não o disse à mulher ao lado de quem se deitou durante mais de 50 anos. Não há nada para dizer. Não mo diria mesmo que eu lhe matasse os filhos e os netos.

“Houve momentos em que o sonho – o que comanda a vida, e o que concebemos durante 40 anos de ditadura – estava a ser defraudado. Havia muralhas que não queriam deixar o mar avançar. Era preciso fazer alguma coisa”.

«Depois de algumas acções terroristas de intimidação e afirmação do movimento, como o atentado à bomba a de 3 de Fevereiro de 1981 contra o Banco do Brasil, as FP 25 começam a sentir uma oposição concreta da esfera política portuguesa e a condenação da sociedade»1.

Foi perseguido. Esteve preso durante três anos, enquanto aguardava julgamento. Fez greve de fome durante 38 dias. Foi libertado por falta de provas.

“Conhecia perfeitamente os que andavam atrás de mim. O cheiro a merda era insuportável. Vieram buscar-me às seis da manhã. Não havia nada a confessar, nada foi feito. Nunca fui criminoso, nunca matei ninguém, não tinha nada para contar”.

Ainda hoje não sabe se a Revolução triunfou. À minha frente , aquelas mãos mostram uma luta acesa de vontades.

“Ninguém lhe contará história nenhuma. Se abrir a boca pisou os ideais e não precisa de estar vivo. Levem-me tudo, mas deixem-me as convicções. A Revolução está pisada. Os políticos que nos governam cheiram tanto a merda como os polícias que nos perseguiram”.

Ainda hoje vê o homem explorado pelo homem. Vê-se pela força daquelas mãos que tem a certeza de que ainda fazia sentido levantar as armas. Na verdade, sente-se na sua voz que nunca as baixou.

«As FP 25 assaltaram bancos e assassinaram pessoas. A 19 de Junho de 1984, a PJ desencadeou uma operação contra as Forças Populares. Os “arrependidos” ditaram o andamento do processo judicial. A 20 de Maio de 1987 Otelo Saraiva de Carvalho, herói de Abril, foi condenado a 15 anos de prisão. Cumpriu menos de dois anos»1.

Este homem à minha frente, mãos acesas de vontade, não sabe de nada, não viu nada. Não tem ideia alguma daquilo de que lhe falo.

Verdes olhos, pequenos, húmidos. Mãos agitadas.


“Quando estiver com o Otelo faça-me um favor: mande-lhe um abraço meu”.

1 Adaptado de: FP 25 (Forças Populares 25 de Abril). In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-02-08]. Disponível na www: .

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Os espiões à volta dele

Álvaro há-de ter entre 60 e 70 anos.

Tem os ombros encolhidos, ao nível das orelhas, para que as mãos lhe caibam nos bolsos das calças sem que os braços se estiquem. Tem um semblante cinzento, cerrado, tenso.

Precisa de estar sempre atento, vigilante. Nunca está sozinho.

Esteve em África e há quem diga que foi daí que eles vieram, os que não o largam.

Álvaro deambula pelas ruas como se tivesse o corpo oco. É uma figura escorrida, tensa, pesada nos passos e no desenho dos olhos.

Não é fácil fazê-lo trocar de roupa, tomar banho ou cortar o cabelo. Duvido que seja fácil fazê-lo adormecer.

Ele precisa de estar sempre atento, vigilante. Nunca está sozinho.

Só come enlatados ou fruta fina, que o lembra de África. Lava toda a comida antes de a levar à boca. Eles estão sempre a tentar envenená-lo.

Vive num bairro onde todos os dias há tiros e assaltos, onde os gritos são permanentes, onde os miúdos têm que crescer depressa para tomarem conta dos mais miúdos ainda, onde as meninas já são mães, onde o lixo se amontoa.

Álvaro aproximou-se de mim. Olhou-me. Tinha uma história para me contar. Chegou-se mais perto. Mas não podia.


Precisa de estar sempre atento, vigilante. Porque nunca está sozinho.

sábado, janeiro 30, 2010

O bigode da prima Glória

Ao longe percebia-se bem que não era casamento de gente fina. Ao perto percebia-se ainda melhor.

A prima Glória casou com o primo Jaime vestida de saia-casaco, numa cerimónia simples, marcada para muito depois de expirada a idade conveniente às moças naquele tempo.

Afiança a minha avó, nova ao tempo do enlace, que a cerimónia foi singela e que da união nunca saiu fortuna.

A prima Glória era uma mulher de pouca sorte no desenho das feições, que a vida compensara no desenho da figura.

Trabalhou quase toda a vida na taberna que montou com o primo Jaime – que só via de um olho e começou esta história posto num fato de fazenda humilde mas composto, embora emprestado – perto de uma esquina numa rua da Arrentela.

A prima Glória tinha medo de andar de carro, nunca aceitou uma boleia do meu pai.

Foi a Pigó da infância do meu irmão e apareceu na minha vida tirada de um embrulho de fotografias numa gaveta desordenada.

A defunta prima Glória estava arrumada junto ao defunto primo Jaime, os dois desenhados a sépia.

Pelas minhas contas, passaram anos num namoro sôfrego e embrenhado no escuro daquela gaveta obesa.

Pensei muito nisto e agora sei que ali só pode ter acontecido muita pouca vergonha: Quando a minha mãe os encontrou, naquela tarde de arrumações, era muito difícil dizer quem dos dois tinha mais bigode.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Cacilhas, a cabra, o moinho e o jornal

A sala do edifício entre as curvas de séculos a debruçarem-se sobre o rio tinha umas 100 pessoas viradas para o Tejo, a ouvir autarcas e arquitectos.

Os cacilhenses estão desde 1999 à espera de um plano de pormenor que lhes arrume a terra.

Parece que agora é que vai e, garante a mão do desenho, “a freguesia será a porta da cidade”.

Diz que vai ser por este lado do rio que Almada vai sorrir a quem chega, que é por aqui que se entra.

Na terceira fila, uns caracóis brancos a tocar nos ombros de um casaco grosso. Uma mulher que é daqui levantou-se para falar.

Primeiro não precisava de microfone, que a voz do coração faz eco e ouve-se bem.

Mas depois, “façam o que quiserem a Cacilhas mas não nos levem o moinho”.

A senhora que nunca se virou para as filas de trás esticava o braço, apontando as saias da sua infância.

“Sou do tempo em que ao lado do moinho havia uma cabra. Eu dei pedaços de jornal àquela cabra ao lado do moinho. E ela comeu”.


Parece que para a cabra já não há remédio, que se foi de madura, mas o moinho de quando aqueles caracóis eram loiros ficou prometido.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Uma comédia de morte

“Uma visita inoportuna” transforma o trágico da vida numa comédia de morte”. Está em cena no Teatro Municipal de Almada até 7 de Fevereiro, de quinta-feira a domingo.

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"Uma comédia de morte"
. É assim que o encenador Philip Boulay, director artístico da Wor(l)ds Compagnie, descreve a última obra escrita pelo cartonista, romancista e dramaturgo argentino Copi (pseudónimo artístico de Raúl Damonte Botana).

"Esta peça foi escrita numa altura em que ele já sabia que tinha Sida e que morreria em breve", recordou.

“E o que é interessante neste texto é que Copi transforma o trágico da vida numa comédia de morte, sempre com um tom pleno de elegância. É com elegância que ele se despede do teatro e do seu público”.


Para Boulay, “como em todo o teatro deste autor, esta peça põe em cena um episódio da sua vida”: “Hoje, mais de 20 anos depois da sua morte, há uma coisa que podemos observar: a estrutura das suas peças exprime uma mecânica da angústia, e foi isso que me interessou”, disse.

O encenador sublinhou ainda o facto de, “nesta interpretação, Copi ser visto num sentido amplo do termo, fugindo a conotações de outras épocas, que reduziram a peça à ideia de uma comédia gay”.

“É certo que a sexualidade tem importância, mas a peça não se esgota nela. Nem Copi pode ser visto apenas como um autor gay, ele é polimórfico”, considerou, acrescentando que “o essencialismo é a pior coisa que podemos fazer a um autor e à sua obra”.

Diogo Dória veste a pele e o pijama de Cirilo (Copi), uma personagem da qual se aproximou “olhando para cada palavra do texto, porque todas as palavras eram Copi e a sua essência”.

Para o actor, “a força desta peça é a relação entre o trágico, que é a morte, e a grande gargalhada, que é a vida”: “O público vai confrontar-se com a morte e vê-la ser tratada de uma forma muito colada à vida”, prometeu.

É assim que, no quarto de hospital onde Cirilo (Copi) morre de Sida, e no dia em que passam dois anos sobre a data em que soube estar infectado, que se cruzam personagens hilariantes e bizarras, que dão forma a esta tragicomédia.


À volta desta morte inevitável - e a parodiá-la - estão Humberto, velho amigo, que veio anunciar a construção de um luxuoso mausoléu, até ao jovem e tímido jornalista que lhe desperta uma paixoneta, passando por uma louca diva de ópera italiana, um médico que pratica lobotomias nas horas vagas e uma enfermeira que fuma ópio.

“Une visite inoportune” estreou em 1988, no Théâtre de la Colline de Paris, já depois da morte do autor.