Sábado, Julho 18, 2009

O poeta mercador

À volta, numa tarde de sábado, era tudo futebol mais barulhos e confusões anexas. Na mão dele, todos os dias, era toda a realidade feita poesia.

O homem sem traços tortos de maior, dono de curvas generosas e corriqueiras, é o poeta da região. Verseja a realidade.

- “Como eles fintam a bola eu finto as palavras e faço versos”, explica, enquanto tira notas para ajudar a inspiração.

Na mão dele “tudo dá verso”, afiança. E é tão de confiança que a Junta lhe editou um livro, que ele folheia e lê, salteando versos, “porque um pai ama todos os seus filhos com o coração a transbordar”.

Lê-os com a pressa de um amor tão cheio que não consigo fazê-los assentarem-me no caderno onde é preciso que se desenhe também uma reportagem feita da matéria de que o poeta fará mais obra.

- “Pode confiar, que sou poeta”.

Só ele é que tem olho para a realidade, “que afinal é toda ela só por si mesma um poema”.

- “Tenho tudo neste livro. O Seixal como nunca ninguém o viu, todo em verso. Eu gostava de fazer chegar a minha poesia a jornais maiores, ou ao mundo, porque ela merece”.

Fui deixando de ouvi-lo entre as vozes de outras conversas obrigatórias. Perdi-o de vista entre a confusão do apito final em campo.

Depois da multidão dispersa voltei a conseguir distingui-lo. Já não tinha o livro na mão. Levava debaixo do braço uma caixa de cartão espalmada. Corri para o apanhar.

- “Ainda quer aparecer numa espécie de jornal na Internet?”

- “Não, hoje já vendi os livros todos. Amanhã penso nisso”.

Sábado, Julho 11, 2009

A lição

O garoto é baixo demais para a sua idade. Tem caracóis loiros e um casaco de ganga, de mangas arregaçadas, que quase lhe toca nos joelhos. Brinca, sozinho, com uma bola de futebol vazia, perto do antigo chafariz da rua Capitão Leitão, em Almada Velha.

“Ó puto, não vens? És o único miúdo aqui em cima, pá. Os Buraka já estão lá em baixo, meu!”

A pequena figura desprende-se da bola e espreita a mãe, ao fundo, a beber café. Não sabe quem são os Buraka mas isso importa pouco. Quer ir. Torce a boca como quem pensa que argumento pode um menino de quatro anos apresentar a um adulto para poder ir mergulhar na multidão fervilhante, umas ruas abaixo.

A birra deste homem que há-de ser entrou nos ouvidos da sua mãe ao mesmo tempo que Angola entrou em Almada para abrir a Quinzena da Juventude 2009.

Antes da birra do menino e umas ruas depois daquela em que ele joga à bola, Almada está em êxtase e num aperto. No Parque Júlio José Ferraz, a noite está quente e cheira a relva pisada. No palco, montado ao centro, está um homem alto, de fato e gravata. A multidão está suspensa, a olhá-lo.

“Vêm de conquistar a Europa, vão conquistar os Estados Unidos e a Austrália, mas o maior concerto vai ser este, em Almada! Almada é Juventude, Almada é a Quinzena. O flow dos Buraka está a rebentarpessoal! ‘bora dançaaaaar!, anuncia António Matos, Vereador da Juventude da Câmara Municipal de Almada.

“Isto é Angola, isto é Almada, isto é Burakaaaa!”, gritam do palco.

A multidão deixa-se arrebatar pelo kuduro e dança em delírio, salvo algumas vergonhas pontuais. Visto de longe, parece que há ondas por cima da relva. Ao perto há braços no ar, um coro irrepreensível e rodas onde se dança ao despique: “Wegue, wegue wegue wegue! A buraka é qui está a cuiare”.

Os mais miúdos, como o do início deste texto, negoceiam com pais aflitos com a bagunça de dança que se agrava. Percebe-se um vá-lámãe-só-mais-um-bocadinho-só-mais-esta-só-mais-esta e vão ficando:

“Pongo Love é qui está bater. Wegue, wegue wegue wegue!”

Perto do palco, ao lado do homem alto, que rimou ao microfone, está uma mulher baixa, de cabelo claro, com sapatos de quem não veio para dançar kuduro mas que se mexe como quem não resiste ao ritmo.

Maria Emília de Sousa, Presidente da Câmara Municipal de Almada, veio ver os Buraka Som Sistema porque gosta e "porque queria perceber se a escolha da banda tinha sido acertada”.

Sorri com os sorrisos dos jovens, orgulha-se da energia com que dançam e conversa com todos.
Beija muitos deles, sempre com aquele jeito de Abril, que é agarrar na cara do outro com as mãos abertas e de sorriso largo.

O público acompanha o ritmo que o palco irradia e as vergonhas pontuais já não existem. Os miúdos já não pedem aos pais que fiquem, porque agora são os pais que não querem ir embora.

Nem é preciso mais perguntar se esta foi uma boa escolha para abrir a Quinzena de 2009.

Os Buraka Som Sistema recriaram o kuduro, fundindo-o com o techno, o drum‘n’bass, o hip hop e a música de dança. “Assumimos directamente a nossa relação com África”, afirma Riot, membro da banda.

“Sentimos que o kuduro tinha uma base rítmica incrível mas que ainda não tinha sido muito explorada, então decidimos que íamos ser nós a mostrar a nossa visão do kuduro, tendo em conta todas as outras músicas que ouvimos”, diz.

Para Kalaf, também membro da banda, “o trabalho dos Buraka é a África pobre, encarada e vivida com audácia”.

“Vocês estão aí, ou quê?”, grita-se do palco. “Vamos fazer a festa nós, Almadaaaa!”

A multidão faz ondas cada vez maiores. As pessoas não andam, dançam.


“Almadaaa! Vocês estão cansados? Vocês estão todos aos saltos? Almaaaaada!”.

Almada está apertada, abraçada, transpirada e, efectivamente, aos saltos. O concerto termina como começou: “Wegue, wegue wegue wegue! A Buraka é qui esta cuiar... Almada é qui está a cuiare… Wegue, wegue wegue wegue!”

“Buraka ‘tá a bazar!” – sai do palco.

Há aplausos fortes e assobios. E há reclamações: Almada queria ser dos Buraka a noite inteira.

Se os Buraka gostaram tanto como Almada? “O importante é que vocês tenham gostado. Isso é que é verdadeiramente importante”, diz Kalaf. “Nós gostámos, mas queremos é saber de vocês”.

Depois da música e da dança, a multidão acalma-se e demora-se nas conversas entre amigos, a aproveitar a noite – que parece de verão – e a sentir o cheiro a relva ainda mais pisada.

O garoto do início deste texto, caracóis loiros e um casaco de ganga, de mangas arregaçadas, que quase lhe toca nos joelhos, está virado para o palco, onde já não está ninguém. Está de mão dada com a sua mãe, que está mais transpirada do que ele.

“Vamos embora?”, pergunta ela.

“Agora podemos ir. Antes da música é que não podíamos, percebes? Não te disse que ia ser fixe? Não gosto nada quando és teimosa!”

Texto publicado na revista P'Almada, online aqui.

Sexta-feira, Junho 26, 2009

A história que me escolheu

Fala-me primeiro na sombra e num tom conforme, circunspecto, para que quem não seja para aqui chamado não perceba uma palavra do que se vai seguir.

A festa de crentes que à volta serpenteia não dá por nada e é certo que isso se deve apenas à sagacidade com que este sujeito opera.

Examina-me rigorosamente a credencial ao pescoço, olha-me de esguelha e atira, em surdina: “Você é jornalista? Tenho uma história para si! Tenho uma história para lhe contar”.

Joaquim tem “uma data de anos, que mais do que isso não interessa que o que há para contar é sobre o Cristo Rei”, que faz 50 anos mas não tinha quase nenhum quando ele lá chegou.

Tem sotaque alentejano e um falar apressado, de homem de segredos, cujo olhar se desvia do da conversa para se acautelar quanto aos transeuntes. A sua fala interrompe-se assim que alguém se aproxima.

“Cheguei lá em 1944. Precisavam de pedreiros e eu estava desempregado e fui lá e fiquei logo a trabalhar”, começa, quase a trautear, sem pausas para respiração.
“As colunas estavam a meio e depois fomos enchendo por aí acima, até chegar ao topo. Acabámos de encher a cabeça do Cristo Rei em 1958, eram onze e meia da noite, no mês de Maio, chovia como Deus a mandava. Quando acabámos estávamos todos encharcados. Fizemos uma festa e fomos embora”.

Um dia, “depois de estarem montados uns guinchos e uns andaimes” para que os homens pudessem “descascar as colunas até ao chão, tudo a ponteiro, durante um ano”, Joaquim escorregou.

Aconteceu-lhe ser o único acidente que aconteceu durante a construção do Cristo Rei: “Fiquei dez minutos pendurado, a roçar nas colunas por causa do vento, escavaquei-me todo”, recorda.
“Mas antes ganhei um prémio: eu era o tipo que descascava mais rápido a casca de cimento!”

Trabalhou até ao último acabamento. Sabe muito mais segredos do que os que revela, garante.

Sabe “coisas de cofres, de listas e de dinheiros correntes, de caixas de cimento forradas a esferovite, mas isso não é coisa para se dizer agora”.

Em Maio de 1959, na inauguração do monumento, ajudou a arrumar as pessoas, “que aquilo era excursões por toda a parte”.

Depois disso ficava lá aos sábados e aos domingos a fazer as faltas dos outros, “que aquilo era muita gente de visita: chegou a fazer bichas de 150 metros. O bilhete era 25 tostões”.
“No elevador estava marcado 17 pessoas. Eu chegava a levar às 20 e às 25, para despachar o pessoal”.
Perguntei-lhe se achava que este Cristo Rei, senhor de meio século, ainda era o seu filho. Pronto, garantiu-me que “até sabia quantos quilos de cimento levou, quantos quilos de pedra, quanto levou de areia”.

Contou-me que “a figura tem de dedo a dedo o que tem de altura, 28 metros”, que “dentro dos braços tem uma média de cinco metros de altura” e que “a unha do dedo polegar tem 70 centímetros e o dedo maior tem dois metros e 20”.

Para provar o que dizia, Joaquim tinha, embrulhadas num saco da farmácia, fotografias de cada momento. Mostrou-as uma a uma e demorou-se naquela em que era um moço novo e jeitoso, a pousar para o retrato em frente à obra feita.

Tão depressa como começou, e com a mesma cautela de qualquer informador secreto, Joaquim calou-se. Levantou-se do banco para onde me tinha levado para o segredo. Olhou em volta e para mim mais uma vez: “E é isto, pronto. Adeus”.

Segunda-feira, Junho 15, 2009

A Tirónia

Chamámos-lhe tantas vezes Tirónia que passados uns anos tivemos que lhe perguntar o seu verdadeiro nome.

(Viveu sempre aqui na rua e já era velha quando eu nasci.)

Vinha aos fins-de-semana ao restaurante, imensa, com uns papos debaixo dos olhos, a saber se havia restos de comida para o Tirónio.

Imaginámos sempre um cão à sua medida: grande e guloso.

Antes da recolha bebia “uma bica para arrebitar”, e comia “um doce que se pudesse dispensar, mesmo que já não estivesse muito fresco”. Às vezes era “uma sopinha do cozido e uns quadradinhos de pão duro, para dar consistência ao caldo”.

Num carrinho de compras com rodas, que ela puxava a custo, levava semanalmente quilos de restos de comida, acondicionados em caixas herméticas.

O bicho havia de apanhar grandes barrigadas, pensávamos. Havia de ser tão gordo que mal se mexia, como a dona.


A Tirónia gostava de falar de “poucas-vergonhas”. Sempre que podia contava a história de “uma prima que tinha engravidado enquanto estendia a roupa” ou a de “um lagarto que subia pelas saias das meninas que iam ao campo lá na sua terra, sem nunca ficar abaixo dos joelhos nem acima do umbigo”.

Vestia sempre calças e t-shirt de algodão. Por cima disso um bibe e na cabeça um chapéu, de pano ou de palha, sempre com um elástico. No inverno usava apenas, por cima disso tudo, um casaco de malha grosso.

A Tirónia nunca usou sapatos, sempre uns chinelos ortopédicos, velhos e gastos.

(Quando eu era pequenina os chinelos dela já eram velhos.)

E assegurou sempre que a sua vida fora desgraçada: a mãe não a quis e ela foi, “de pequenina, servir para casa de uma senhora que não gostava dela”. Casou duas vezes, “dois maridos lhe morreram”: “Nunca tive pinga de sorte”, garante.

Lembra-se muitas vezes, e com gosto, do ranho que limpou a Manuela Moura Guedes, de quem foi ama: “Via-se que havia de ser boa cantora, jornalista e política”.

A D. Ana vive numa casa velha, ao fundo da rua. Um dia vimo-la a passear carinhosamente o Tirónio. Afinal é um pincher. Ela nunca mais voltou para lhe vir buscar comida.

Segunda-feira, Junho 01, 2009

As bengalas de Abril

O domingo de chuva indecisa não começou há muito tempo. É cedo. Muito mais cedo do que isso porque é domingo e porque ora está de chuva, ora está quase a estar de chuva.

Não obstante, eles chegam determinados, em filas ininterruptas, fora as intermitências próprias da locomoção naquelas idades.

É dia de congresso e vêm – de muletas e bagagens – de todo o país para arrumar a sua luta: “o Movimento Unitário de Reformados, Pensionistas e Idosos (MURPI) quer ser reconhecido pelo poder político como a voz de todos os reformados do país”, explica-me Casimiro Menezes, presidente do Movimento.

Ao longo das inúmeras filas intermitentes, impecavelmente vestidas de domingo e pontuadas com boinas de fazenda que descaem para a esquerda, – sempre para a esquerda – ouvem-se queixas dos joelhos, das costas e do tempo, que traz as dores nos ossos.

Dentro do pavilhão já meio cheio, um coro alentejano apruma as fardas e prepara-se para ensaiar. Eu não fico nesta estória o tempo suficiente para poder dizer se o ensaio valeu a pena.

Ao longo dos blocos de cadeiras virados para o palanque de onde vão sair as palavras que hão-de arrumar a luta para que aqui se veio hoje, está uma senhora cujo cartão ao peito identifica como voluntária.

“Preencham as fichas de inscrição no almoço. Quem não vê bem pede ajuda ao colega do lado”, diz ela, com pequenos passos nervosos de saltos altos. “À direita os andarilhos, à esquerda as bengalas. As muletas ficam arrumadas aqui ao canto para não atrapalharem a passagem, depois peçam-nas a quem estiver mais perto de vocês”.

Na ponta da segunda fila está Felicidade Barreiros, 71 anos, cabelos brancos e armados em traços largos com laca. Tem os lábios pintados de vermelho.

“Tenho Abril na boca”, conta-me. “Luto pela liberdade desde antes do 25 de Abril. Nunca me filiei no partido porque o meu marido se filiou, e não quisemos arriscar ser os dois presos por causa das meninas”.

Felicidade vestiu milhões de bonecas na fábrica onde trabalhou, na Marinha Grande, onde ainda vive, e vestiu, como a maioria dos que vieram aqui hoje continuar a luta, o país de liberdade.

“Erguemos esta nação, demos tudo. Acho que nos devem mais carinho do que aquele que nos dão”, desabafa. “Demos tanto das nossas vidas... Diz na Constituição que ninguém deve viver com menos do que o salário mínimo. Nós somos gente ou não somos?”.

“Sinto que este país não é o Abril com que sonhámos. Este Abril está coxo, precisa de bengalas, como nós. É uma boneca por vestir”.

Felicidade diz que no Abril com que sonhou as suas netas, ambas licenciadas, não estariam desempregadas. No Abril com que sonhou não teria que escolher entre um medicamento e a conta da luz. No Abril com que sonhou a velhice seria poesia, como prometeu o sol que veio depois da luta.

De acordo com o presidente do MURPI, há 1,2 milhões de pensionistas que sobrevivem no limiar da pobreza e a abrangência do Complemento Solidário para Idosos é parca: “É dado apenas a 200 mil pensionistas quando existem mais de 1.560.000 receber menos de 330 euros por mês”.

À volta, a sala continua, intermitente e vagarosa, a compor-se. O coro afina-se. O palanque está cheio, a ordem na luta vai começar a ser desenhada.

Um senhor alto, moreno, de bigode grisalho, faz-me sinal como quem tem um segredo para contar.

“Não é fácil organizar coisas com idosos, menina. Eles demoram muito a fazer uma fila, depois demoram a encontrar os lugares, demoram muito tempo a sentar-se e depois vai-se a ver e nem ouvem o que se diz... Desculpe o atraso, sim? No próximo congresso havemos de combinar ainda mais cedo”.

Quando chegarem todos ao pavilhão serão 400, a ordem na luta já terá sido posta, o coro estará a preparar-se para cantar e as inscrições para o almoço já estarão na posse da voluntária de saltos altos.

Saí antes. Nas escadas depois do pavilhão e ainda antes da rua vinham duas senhoras idosas, imensas de tão redondas e zonzas de tão perdidas.

Estão um bocadinho atrasadas. O pavilhão é depois destas escadas, à direita”, arrisquei.

“Já serviram os croquetes?”, pergunta a maior, num tom conforme às suas formas.

“Não vi croquetes em lado nenhum lá em cima”, respondi, envergonhada.

“Se não viu croquetes em lado nenhum quer dizer que ainda chegámos foi cedo demais!”

Segunda-feira, Maio 18, 2009

Fátima ao colo

O Santuário espera, cheio e transpirado – debaixo do mesmo calor de há 50 anos, quando pela primeira vez ali se esteve em suspenso para falar em coro ao Senhor – pela Santa que apareceu antes da capela que se havia de construir depois e que chega hoje cá acima para soprar as velas com o Cristo Rei.

Há velhos e novos, velhas e novas, com joelhos vergados ou por vergar, ou acabados de esticar por causa da Virgem, que veio à frente de todos desde Fátima a Lisboa, de Lisboa – pelo Tejo coberto de cortejos – a Almada – entupida de cânticos e velas por aí acima – até depois daquela subida muito a pique, que curva e faz arfar.

Ainda se houve dizer, com muita fé, depois da “velinha-para-alumiar-a-santinha-a-um-euro” de ontem: “Olha o lencinho, para dizer adeus à Virgem. Olha o terço, para rezar ao Cristo Rei. Olha o cachecol, que também tapa o sol”.

Florbela e Elizabete Oliveira continuam com os pregões a saltar na língua. Entre o deita-fora-o-pregão e o inspira-para-deitar-outro, “este momento – como o de ontem e os outros todos em que a Virgem aparece – é um momento maravilhoso, de grande fé”. É pena pelo negócio, choram-se, porque “não se vende coisa nenhuma”.

Debaixo de um chapéu florido, de cetim, está a cabeça de Albertina Martins, 67 anos, menina ao tempo de benzer a obra acabada. Albertina veio hoje, como há 50 anos, a pé, para rezar. “Adorei todas as procissões. Emocionei-me muito. Nunca mais vou voltar a ver uma coisa destas”, diz, exaltadadíssima, de braços feitos compridos pelo impulso da expressão.

“Mas estou ao sol desde as 11h da manhã. Não há direito!”, indigna-se: “Vim inaugurar isto, o meu pai forneceu a pedra e a areia para erguer o monumento. Sem mim quase que não havia Cristo Rei!”, argumenta. “Pelo menos a uma cadeirinha à sombra eu devia ter direito. Aquele palco está cheio de mulheres com forças nas pernas e os velhos ficam todos deste lado”, remata.

Antes da Santa do carro vem a do colo. Trá-la uma mulher de formas redondas e maquilhagem que sobra. Ana Paula Cruz, 48 anos, carregou, durante toda a procissão em Almada – de Cacilhas ao centro da cidade e daí ao Santuário – uma imagem da Nossa Senhora de Fátima, réplica fiel da que veio encerrar as celebrações do centenário.

“Não sei quanto pesa”, conta Ana Paula. “Sei que, por ela, a Nossa Senhora deu-me forças para chegar até aqui e cumprir a minha promessa. Custou-me muito, pensei que não chegava”.

Aproxima-se de Ana Paula uma mulher que há-de ter mais de 60 anos. Beija freneticamente a Santa, enquanto grita: “Salve-me, minha Santinha, salve-me! Tirei um tumor da cabeça e sinto-me tão mal, sinto-me tão mal! Este sol, a minha cabeça, a minha cabeça. Beijo esta e é como beijar a outra, não é? Não chego lá... Salve-me, minha Santinha!”

“Ela vai ajudá-la, saúde e sorte”, disse calmamente Ana Paula, arrepiada.

A imagem que traz nos braços “correu mundo”: “É uma imagem muito especial, igual à que está em Fátima, e já andou pelo mundo. Esteve em Roma e chegou a ser abençoada pelo Papa João Paulo II”.

Ana Paula trouxe Fátima ao colo por causa de um tropeção de amor.
“Separei-me do homem que amo. Não encaixamos. Resta-me rezar para que não me doa tanto, e pedir para que o mundo melhore”.

Para Ana Paula, “momentos como este são importantes pela oportunidade de reflexão”, porque “as pessoas pensam pouco e só pedem ajuda quando estão aflitas. O mundo olha muito apenas para o seu umbigo” e ela veio também por isso: “para pedir menos egoísmo e menos cinismo em cada um”.

Atrás dela vem um séquito imenso de senhores do Senhor, cujos braços são tão curtos que as mãos mal se podem juntar à frente das barrigas fartas, na linha do umbigo. Antecipam a Senhora que é a sua – a da pompa e da circunstância – que vem mais acima – e com muito mais leveza – do que a que vem ao colo.

Ana Paula traz ao colo a Santa pesada, para tirar peso ao mundo. O séquito dos senhores do Senhor trá-la levezinha, para poder deixar o mundo obeso.

Sexta-feira, Maio 08, 2009

A mulher enorme

Esteve a bater natas para fazer o bolo que há-de ser o nosso lanche e o fim deste texto. Atrasou-se mas chegou, ainda a limpar as mãos molhadas à bata branca.

Filomena tem uma figura miúda: é magra e baixa. Tem mãos de avó. E tem as pernas arqueadas: não anda, dança.

O rosto é desenhado por traços fortes, carregados. Tem os olhos dento de uns óculos de massa redondos, de filósofa; sobrancelhas espessas e cabelo curto, com poucas madeixas brancas.

Filomena conta 83 anos e é voluntária há 14, todos os dias, nunca menos de oito horas por dia. Veio ocupar a cabeça porque o filho mais novo é assim. Porta-se mal. Tem aquilo das drogas que se diz com aquela palavra complicada que Filomena não arrisca.

“Ele é um menino intermitente desde que nasceu, prematuro. E antes disso já tinha sido uma gravidez de risco. Agora, já quase com 45 anos, não deixa de me preocupar por um dia que seja”.

Levou-o para a desgraça maior o 25 de Abril de 74, garante a mãe: “Vieram muitas coisas de fora. Era uma euforia, havia muito de tudo, muita gente nova, os miúdos agarraram-se a coisas que não conheciam. Ele também se deixou ir, começou a meter-se naquilo”.

Filomena não consegue deixar de se culpar. “Viemos do nordeste transmontano à procura de uma vida melhor. A minha inteligência não abrange esses mundos todos. E eu não sabia nada da vida. Não percebi o que se estava a passar e nunca consegui fazer nada”.

“Tive coragem de mandar prendê-lo”, conta. “Matou o meu marido de desgosto e levou-nos tudo. Aos outros nunca fez mal, mas para os pais tem sido um calvário, embora esteja a atravessar uma fase melhor”.

Nunca está doente porque não pode: “Não tenho como pagar os medicamentos, por isso nunca adoeço”.

Enquanto ajeita os seus óculos redondos, Filomena responde-me à pergunta sobre a influência que o urbanismo de um bairro social tem na vida dos que lá vivem: “Pergunta-me como é que o Governo pode acorrer a tanta gente que só grita para pedir sem se mexer para trabalhar? Eu não sei, mas não acho que tenha sido esperteza juntá-los todos”.

Depois das escadas está uma sala onde começa a entrar gente. No centro está uma mesa comprida, coberta com uma toalha de xadrez vermelho. Em cima, um bolo alto, barrado com as natas do primeiro parágrafo.

Filomena olha cheia de orgulho para os que namoram o bolo e desafia-me: Uma jornalista é muita coisa, menina, mas não acredito que saiam bolos tão bons das suas mãos como saem das minhas, mesmo com esta idade. Uma fatia?”

Na barriga do Tejo