quinta-feira, fevereiro 26, 2009

De braços abertos, a segurar o céu

O céu estava todo azul e o Cristo alto de cimento estava, como sempre, a segurá-lo, de braços abertos. Era ainda a altura do dia em que as subidas fazem transpirar.

Ela caminhava com a ajuda de uma muleta, e ele estava parado de costas para ela. Ele continua a ser o Cristo alto de cimento. Ela, ia dizer-me depois, era Fernanda da Conceição Alves.

Trazia vestido um casaco preto ruço e grosso, pelo tornozelo, calças de flanela e um cachecol cinzento, enrolado ao pescoço. Fernanda tem a cara amarrotada por rugas grosseiras, profundas, mas os seus olhos são da cor do céu que o Cristo alto de cimento segura com os braços.

- “Eu ando aqui perdida, não sei onde ando”, suspira. “Ninguém me acode!”

Saiu de manhã de casa para ir namorar e perdeu-se.

- “O meu marido morreu há seis meses. Meu rico marido! Ia ao cemitério vê-lo, porque tenho saudades. Mas já não tenho cabeça. Perdi o tino. Moro no Bairro no Pica-pau. Tenho que apanhar o autocarro”, apressada, apressada.

Mas não sabia onde ia apanhar o autocarro nem que autocarro devia apanhar. Fernanda ouve mal; não percebe nenhuma palavra que lhe chegue ao ouvido mais baixa do que um grito. A pressa que levava nas pernas não denunciava nem a cabeça baralhada, nem a perna que dizia ter manca.

- “Ai, o que eu era! O que eu era! Sabia muito bem dançar, ia para os bailes, para as festas. E era bastante jeitosa!”, lembrou, a sorrir. “Agora ando assim da cabeça, com o tino perdido".
Fernanda envelheceu tudo na cara e muito pouco no cabelo, quase todo preto, arrumado para trás com uma bandolete.

- “Não tenho ninguém; sou sozinha. Não há ninguém a quem possa ligar”, garantiu-me. “Mas não estou nada perdida, sei bem onde estou. Vá com Deus que eu fico com Deus. Eu tenho passe”, afirmou, inabalável.

E tem: dentro do quadrado da fotografia está, de lábios vermelhos, a Fernanda de corpo jeitoso; a dos bailes; a de antes da muleta, da viuvez e da perda de tino. À volta disso está um passe social com a senha deste mês.

Seguimos até uma paragem de autocarro.

- “Nasci em Campolide. Tenho quase 89 anos. Tenho penado muito nesta vida! Mas sempre como uma mulher de bem. É perguntar a qualquer pessoa, toda a gente diz informações de bem sobre mim. Trabalhei muito, e não foi a matar ninguém: trabalhei nas obras, a dias... Fiz muito toda vida!”

Espreitei as horas e o horário do autocarro e voltei a fazer-lhe as perguntas do início, para garantir que conseguia chegar sozinha a casa.

- “Eu tenho muito boa família, bem empregados. Até tenho um primo que trabalha na televisão! Mas não tenho ninguém. Sou sozinha. E estou aqui perdida. Perdi o tino e não tenho quem me acuda. Moro na Praça...”

Falei-lhe em chamar a polícia. Teve medo, não quis. Tentei um táxi, mas ali os carros são para turistas com dinheiro, não são para velhos perdidos. Parei um condutor e fi-lo companheiro de missão: Mário.

- “Fernanda! Arranjámos um carro!” Fernanda tinha prometido ficar sentada perto da paragem, até que a solução aparecesse. E ficou. E fomos. Parecia uma menina:

- “Eu pago! Eu pago! Siga! Siga!” E dava ordens aos gritos, gesticulava, dava saltinhos no banco de trás. Achou que estava num táxi e eu não a contrariei. Lembrava-se perfeitamente do caminho. Chegámos.

- “Vais ver a minha casinha. Limpinha. É só um bocadinho. Vens lá comigo, ver a minha casinha!”, dizia, excitadíssima, a fazer-me festas na cara e a sorrir-me, numa imensa boca deserta, e a tirar do bolso as chaves de casa.

A porta do prédio não tem fechadura nem maçaneta: tem um buraco a fazer de uma e um arame a fazer de outra. No caminho até ao 4º C pode perceber-se que ficou muita coisa por acabar. Fernanda abriu a porta e mostrou-me tudo, quarto por quarto. Fotografias, casa de banho. Tudo, enquanto dizia: “Tenho ou não tenho uma linda casa?”

Aguentou-me ali tanto quanto pode. Antes de me deixar vir embora beijou-me e abraçou-me com muita força.

- “É de todo o coração, filha, de todo o coração!”

E abraços e beijos e abraços e mais beijos. De todo o coração. Adeus.

Voltei de boleia com Mário, meu companheiro de missão. Ele deixou-me onde eu o parei, mesmo antes das suas fotografias à ponte. E o Cristo alto, de cimento, estava exactamente onde ficou: de costas para Almada, sem ver os de lá nem acudir os de cá, mas de braços abertos, a segurar o céu.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

O vizinho do cão

Eu tenho um vizinho do cão. Antes era o vizinho dos gatos. E antes disso era de novo o vizinho do cão. Foi sempre o mesmo, o homem. Os bichos é que foram mundando.

“Anda, Nina!”
Calculo que o vizinho do cão se chame António ou José, e que é por isso – por ter uma graça corriqueira – que importa mais que seja do cão, dos gatos, ou do cão outra vez.

“Anda, Nina!”

É um homem de estatura média, com idade e careca de avô. Nunca deixou de usar os seus Ray-Ban verdes. É do sporting e tem um pé, que é como quem diz o corpo todo, a fugir para a curiosidade sobre as vidas alheias.

“Anda, Nina!”

O vizinho do cão leva várias vezes o bicho à rua. Não pelo passeio nem pelo chichi do animal, mas para poder cruzar-se com o maior número possível de vizinhos nas escadas. O vizinho do cão não gosta de me ver apressada, e tem sempre conselhos para me dar:

“Não se enerve, Joana, não ande à pressa, que isso mata a gente. Não vale a pena andar sempre a correr. A gente sai da cama e começa logo a sentir stress. Depois continua pelo dia afora, truca-truca-truca-truca, nunca mais pára. Vá para o Jumbo fazer umas caminhadas, relaxar. Ainda hoje lá estive!”

“Anda, Nina!”

O vizinho do cão tem uma mulher que condiz consigo vezes dois – por ser enorme, por ter o dobro do cabelo e por falar duas vezes mais alto do que ele (e do que a generalidade do mundo).

Tem também um neto tão feio quanto ruivo, de quem gosta muito – “Porque a gente acarinha sempre mais os que mais precisam, filha. Sendo menos bonito a gente tem que gostar mais”, explicou-me a minha avó.

E tem, irrefutavelmente, a causa do condomínio colada à pele. O vizinho do cão é a única pessoa em Portugal que gosta de administrar um condomínio. Mais: é a única pessoa que tem uns ténis especiais de corrida – no sentido da utilidade literal do objecto – para subir e descer as escadas do prédio e fazer as cobranças, convocar pessoalmente os condóminos para as reuniões, e aproveitar para fazer queixa de quem não paga.

A parte mais importante das coisas que o vizinho do cão tem é o bicho. E o bicho não é bem um cão, é a Nina.

“Anda, Nina!”

É gordíssima, amarela-ruça-de-velha, e tem microcefalia. Está surda, tem reumático e tem que subir a escada ao colo, porque, atesta o vizinho, “tem medo dos degraus”. A Nina não come o meu gato porque não o vê nem o cheira, mesmo quando ele se põe à frente do seu focinho, a provocá-la.

A Nina é uma cadela que já morreu mas que, por respeito ao vizinho do cão, continua a andar.
“Anda, Nina!”

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Brilho apertado

Abu Dhabi ainda não tem o brilho que merece uma capital. O Dubai, todo sorrisos e piscares de olhos ao Ocidente, ultrapassou-a pela direita, e fez-se num deslumbrante parque de diversões para adultos estrangeiros, bonitos e de bolsos cheios.

Na capital sabe bem o azul todo que é a Corniche, a estender-se, larga e comprida, pela costa: o seu chão desenhado mais o mar à esquerda, o céu por cima e o sol a deitar-se ali ao fundo. Têm graça as mulheres, tapadas até depois das pestanas, a andar ou a correr, calçadas com ténis do Ocidente em baixo disso tudo.

Em Abu Dhabi sabe bem a falta de arrumação à direita desta avenida: os prédios escuros, com pinturas estaladas e persianas partidas; os cheiros da vida de todos os dias; as pessoas de verdade, com as unhas encardidas do trabalho, e as roupas amarrotadas pelo aconchego que é dividir um quarto por cinco; as mercearias a cair de velhas; o homem da mercearia a fazer contas para pagar a mensalidade do empréstimo para a bicicleta; um afegão que não vi, mas que dizem que faz todos dias pão paquistanês, de cócoras, em cima de um forno: a vida crua, sem polimentos e poses para agradar.

Abu Dhabi quer seduzir o Mundo mas ainda não aprendeu a ser sexy: o que o outro sufoca com luxo, esta sufoca com apertos.

Por um euro fui a visitante número 172665 da praia de Abu Dhabi. Antes disso fui uma cabeça confusa até perceber em qual das praias devia entrar, tendo um homem de mão dada comigo. Os homens e as mulheres vão a praias separadas; a delas é privada e eles não entram a menos que venham em família. Para efeitos de arrumação balnear, percebemos então, um homem e uma mulher juntos são uma família.

Antes da areia branca e fina, e da água morna e transparente, é preciso garantir conformidade para com as regras do paraíso, sob pena de forçar as autoridades a «desencadear acções legais, de acordo com a lei contra os infractores».

Para não testar a eficiência das autoridades basta «não nadar nu; não pescar; não fazer fogo; ser decente e respeitar os direitos dos outros; não andar de bicicleta ou de skate nas zonas reservadas as peões; não jogar críquete; não montar tendas; não levar animais; não espalhar lixo pelo chão; tomar conta das suas crianças; não ouvir música alto; não consumir álcool , nem escrever nas paredes». E dá jeito ainda ter em mente que estas são as regras gerais, pelo que as há particulares também.

Por via das dúvidas é fazer como os autóctones: aguentar o calor embrulhado em roupas e molhar as canelas ao de leve, sem excessos ; e já agora, tomar precauções de turista: sacudir a areia dos pés e não se demorar tempo nenhum por ali.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

A feira da caça

Do fresco da noite que está hoje já se falou, por ser ele igual ao de uma noite passada, também em Omã. Fale-se, então, dos passos que faltam para entrarmos, garante Khalid, jovem e paciente cicerone, “no único sítio onde vale realmente a pena ir entre as horas que aconchegam a de jantar”.
[Fotografias: Vítor Martinho]
O Festival de Mascate acontece todos os anos entre Janeiro e Fevereiro e figura na lista dos mais famosos da capital. Chegam, arranjadas e perfumadas, pessoas de todo o país, prontas para «experimentar a verdadeira essência de Omã: as suas tradições, a sua cultura e modernidade, alcançada sem esmagar o traço do desenho da sociedade tradicional.»

O clima é de Feira Popular – pela diversão e pelo aperto da afluência, ávida de folia. Elas a concorrerem com os carroceis, transbordantes de brilho e maquilhagem; eles muito viris, com pose, barbas aparadas e desenhadas. Todos vestem roupas impecáveis e trazem os olhos muito abertos, atentos: hoje é dia de caça.

Vimos aqui porque é onde podemos ver miúdas”, explica Khalid, 22 anos, cabelos farto e escuro, encaracolado, e sardas no nariz. É estudante de Engenharia Informática na Universidade Sultão Qaboos, a maior do país.

Só comecei a falar com raparigas quando entrei para a Universidade”, continua. “Aliás, é a melhor coisa de tirar um curso superior: poder vê-las, estar com elas, ouvi-las, dizer-lhes coisas.”

São muito poucos os visitantes que não trazem os telemóveis na mão.
As mulheres nunca vão ter com um homem”, diz. “Nós é que vamos ter com elas. Levamos na mão um papel pequenino, dobrado, com o nosso número de telefone. Não falamos, só sorrimos. Se ela estiver interessada liga. Se não estiver, já se sabe...”

Não será preciso ser um génio do engate para se perceber que saem muitos papéis da mesma mão todas as noites: “Depende da qualidade do que andar por aí, claro, mas dou sempre o número a mais do que uma”, confessa.

A tecnologia ajuda no galanteio: os telemóveis deles e delas têm o bluetooth ligado e ele faz, várias vezes, a vez do papel.
Khalid deixou em casa o seu traje tradicional: a disdasha (túnica) e o kimah (chapéu redondo, com bordados). Veste-se como se diverte: à imagem de um universitário europeu, mas sem álcool.

Tenho amigos que bebem, mas isso é escolha de cada um. Eu não bebo. Fumo muito quando saio com os meus amigos: shisha, tabaco... Nem uso drogas. Tenho um amigo que foi apanhado a fumar droga e que vai cumprir 23 anos de prisão. Tem a minha idade.”

Khalid deve ter pouco mais de 1,70m. Tem formas redondas e um balanço extrovertido no corpo. Fala alto, entre gargalhadas, e percebe-se, pela frequência com que o seu telemóvel range e apita, que é sociável e muito popular.

É mais comedido quando fala em inglês. “A culpa é dos professores, que são todos indianos. Dizem wán em vez de one! Como é que conseguimos aprender a falar como deve ser?” Odeia indianos, assegura. E lamenta-se: “Tinha tanta coisa para vos dizer, mas com este inglês...!” E ri-se. E rimo-nos e agradecemos e lamentamos não entender árabe para conhecê-lo todo.

Vamos andando pela Feira e podíamos estar em Lisboa. Não há uma única nota de música árabe a sair das colunas enormes e potentes. As pessoas abanam-se – levemente, que é proibido dançar em público – ao som de música brasileira e latino-americana.

Percebe-se que a miúda que passou era gira pela cara de Khalid, que se contrai num sinal afirmativo, e pelos barulhos que faz com a boca, entre estalidos e suspiros.

“Se ela responder vamos falando por sms e ao telefone durante um mês ou dois. Se a coisa for séria encontramo-nos depois disso para começar a namorar.”

Na rua não há beijos. Beija-se em casa ou no carro que, para efeitos pudicos e legais, é mais casa do que rua.

O sexo antes do casamento é como o álcool, cada um sabe de si. A maioria não o faz. E casamos quando temos dinheiro. Precisamos de ter bastante dinheiro.”

Voltamos ao carro depois do espectáculo de pirotecnia e eu não contenho a curiosidade sobre o F. de prata, pendurado num fio que baloiça no retrovisor, ao ritmo da condução desastrosa de Khalid.

Era da Fátima. Foi minha namorada até ter chegado um melhor partido, com mais dinheiro. E partiu-me o coração”, e aperta o F. com a mão direita, sentido. “Mas não quero falar sobre isso”, remata.

A música, a que ele sobe o volume para fazer parágrafo na conversa, em árabe, canta um amor perdido, que foi embora, ninguém sabe para onde.

Khalid lê mais uma mensagem no telemóvel e vira o retrovisor para nos ver melhor. Sorri. Tem um ar gingão e confiante. Volta a olhar para a estrada, satisfeito. Talvez fosse a miúda de há pouco. E se não resultar com esta, amanhã há feira outra vez.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Xavier, com S.

Diz que sim como os da sua terra: faz pender a cabeça para a direita e para a esquerda, com as orelhas no sentido do ombros. Direita-esquerda-direita-esquerda e um sorriso largo continuado. Por cima disso um bigode intermitente: ora crescido, ora cortado.
- “Uns amigos preferem de uma maneira, outros de outra. Faço a vontade a todos”, diz, num riso nervoso.
Chama-se Xavier, pronunciado com S., mas na placa dourada, posta na camisola verde da farda, só se lê Xavier.

Nasceu em Bombaím, Índia, e a sua pele tem a cor da sua terra, onde deixou os pais, à procura de uma mulher para casar com os seus olhos escuros e com as suas gargalhadas permanentes.

- “Vim para o Dubai para poder juntar algum dinheiro. Quero casar. É isso que mais quero: casar e ter uma família”, diz-me, a encolher os ombros e a virar o rosto, de vergonha.

Xavier, com S., é licenciado em Ciências Farmacêuticas e chama-me “M’am”, de senhora, com S. maiúsculo. É assim que tem que ser: eu sou cliente de um hotel tão luxuoso que me tira o ar (a minha casa-de-banho é do tamanho da sua casa) e ele vem para fazer limpezas.

- “Ganho muito bem, adoro estar aqui. A minha casa fica só a uma hora de autocarro. Divido o quarto com três amigos, é muito bom. O hotel paga-me o quarto, o transporte e a comida.”

Ganha o dobro do que ganharia na Índia, a trabalhar como farmacêutico, se tivesse a sorte de conseguir um emprego: 280 euros. Trabalha oito horas por dia e tem quatro folgas por mês. Vai sair daqui “um bom partido” e “confia no gosto dos pais para lhe escolherem a mulher”.

- “Vai ser linda. E cristã, como eu”. E um olhar brilhante, como quem já lhe vê a cara.

Xavier tem a pele das mãos seca, e uma unha da mão direita partida. Gosta de música. Acha o fado triste mas já sabe dizer saudade; tem-na escrita num papel que traz no bolso.

Demora até aceitar um chá, um pedaço de bolo ou uma bolacha. Que “obrigada-mas-já-comi-e-comi-muito-bem-a-comida-é-óptima-mas-obrigada-Senhora”. E outras gargalhadinhas nervosas, de falta de hábito.

- “Os hóspedes deste hotel são muito ricos e normalmente mal educados. Olham pouco para nós e conversam connosco muito raramente. Mas não faz mal, eu também não quero conversar com eles.”

Depois de casar, em Junho, vai "ficar dois meses na Índia, com a mulher, e depois volta. E vai, e volta, e vai e volta, para ter uma boa vida.”

Enquanto não casa, é a minha companhia de antes do almoço, e mais uma no meu coração.

- “Limpo os outros quartos a correr para vir conversar contigo”, sorri-me. E eu levanto-me mais cedo para conversar com ele, sorrio-lhe de volta.

Descobri, entre as tralhas que o Vítor nunca consegue deitar fora, um leitor de mp3. Ofereci-o ao Xavier, entupido de fado. Ele adorou. Agora tem onde ouvir Portugal até o decorar, e já não precisa de trazer a saudade, com S., escrita num papel.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Mercado do Peixe


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segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Nasser, o taxista da família e do coração

Estamos a meio caminho entre Mascate e Seeb, na Grande Mesquita Sultão Qaboos, o homem que manda em Omã e que é “bom, tolerante e visionário”, dizem várias vozes pelos cafés.
O sol nasceu há pouco tempo mas já não é difícil transpirar. No jardim da Mesquita, o trabalho começou muito antes de chegarmos. Em direcção a nós vem um jardineiro indiano incontornável, orgulhosamente “encarregue de tudo o que se vê ali plantado”, e pronto para fotografar estrangeiros, mesmo aqueles que não querem ser fotografados. “É ali que costumam ficar para eu lhes tirar fotografias”, indica – ordena – com a mão, para logo depois fazer o gosto ao dedo.
Dois passos à frente, uma cara familiar.
- “Estão atrasados, menina.”
Nasser fala como anda: com muita calma. Sorri sempre. É um homem baixo, de pele morena e, hoje, barba de um dia. Tem, entre os olhos escuros, um nariz grande e redondo, que está também na cara do mais novo dos seus nove filhos, que fotografou com o telemóvel.
Acordámos uma viagem até Nizwa, a 80 quilómetros de Mascate, uma paragem no mercado e outra no único forte onde é possível entrar. O regresso, prometeu, seria a tempo do segundo autocarro da capital para o Dubai.
- “Ainda não entraram na sala principal?”
Descalçou as sandálias e seguiu-nos.
A Grande Mesquita de Omã “tem 40 mil metros quadrados e espaço para 20 000 fiéis. Foi construída com materiais sírios, egípcios, turcos e iranianos. O Sultão inaugurou-a em 2004”, explica Nasser.
A principal sala de oração é senhora de largos ornamentos: no chão tem 4 200 metros quadrados de carpete persa feita à mão – dentro da Mesquita, sem cortes – e que pesa 21 toneladas; no tecto, de cúpulas altas, há traços dos fortes que os portugueses contruíram em Omã, e luxo pendurado nos imensos candeeiros de cristal e ouro.
Seguimos viagem. Mascate embala o caminho para Nizwa: as montanhas tocam as núvens e enquadram a vista em tons de castanho e cinzento; as palmeiras aconchegam as casas árabes, bonitas e arranjadas.
Chegamos em meia hora.
O mercado da cidade começa antes da entrada: há artesãos sentados debaixo de chapéus de sol, com as plantas dos pés juntas, a apertar couro, e as mãos às voltas com corda e agulhas, para fazer sapatos. É fácil falar com as pessoas mas difícil fotografá-las, que-não-querem-que-não-que-não.

Depois disso também há poucas pessoas com menos de 60 anos. Há artesanato, peixe, carne, frutas e legumes, tecidos, roupas...

Nasser conduz-nos pela vida das ruas e pela de casa.

- “Tenho nove filhos. Somos 13; os meus pais vivem connosco. Em Omã não é difícil ter muitos filhos: o Governo paga integralmente a saúde e a educação, mesmo o ensino superior. Só precisamos de pagar a comida. Tenho uma pequena quinta e dois empregos: trabalho para o Estado e tenho este táxi”, conta.

Cumprimenta vários homens pelo caminho. Repete-se sempre o mesmo ritual: os dois, frente a frente, disparam perguntas em catadupa, num pingue-pongue de palavras que parece ensaiado e que é tanto mais longo quanto a estima que têm um pelo outro.

- “A sua mulher?”
[Fotografia de Vítor Martinho]

- “Bem, a sua?”
- “Bem, o seu filho?”
- “Está bem, o seu?”
(E mais, e mais..)
Almoçamos numa sala quadrada, forrada de carpetes persas, com almofadas ao canto, no chão e na parede, para as costas. Estamos descalços e de mangas arregaçadas. Chegam à mesa, que é a maior carpete no chão, forrada com um plástico fino, seis pratos de diferentes tamanhos, de onde comemos todos: arroz; salmão grelhado; salada de alface e tomate, temperada com limão; atum em molho de vinage e cebola.
- “Não usamos talheres. Comemos com a mão e todos de um prato grande, sempre com a mão direita. Para os muçulmanos, a esquerda é a mão suja; é com ela que nos lavamos. Toda a família come das travessas: imaginam o trabalho de lavar 13 pratos, mais travessas e panelas todos os dias?”, abana a cabeça aliviado, com a mão direita besuntada de arroz como estava, de resto, - e muito por culpa da minha habilidade, confesso - todo o plástico que cobria a carpete.
Saímos redondos de cheios do restaurante. São horas de voltar. A paisagem é a mesma mas no sentido inverso e mais bonita, por estarmos de partida. O terminal de autocarros é feio, como é feio dizer adeus. A cara de Nasser já tem saudades e a nossa também.
- “Queria poder não aceitar o vosso dinheiro. Passei um dia maravilhoso.”
Apertámos as mãos, abraçámo-nos e beijámo-nos. Voltámos com um nó na garganta.
A nossa história mantém-se em todos os capítulos de todas as nossas viagens. As histórias daqueles com quem nos cruzamos mudam sempre. E acrescentam-nos tanto que é impossível viver sem estar sempre com pressa de nos demorarmos em todas as pessoas do mundo que ainda temos por ver.

domingo, fevereiro 08, 2009

Omã no bolso

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sexta-feira, fevereiro 06, 2009

O homem que há-de mudar o mundo

Passava da meia noite. O vento arrefecia-nos a cara queimada pelo verão que é o inverno na praia Qurum, em Mascate, capital de Omã. Tudo transpira história e percebe-se muitas vezes Portugal, que andou por aqui entre 1507 e 1650, e que, mesmo depois de ter sido mandado embora pelos Otomanos, se deixou ficar.
Ficou nos fortes plantados nas montanhas, pontuadas de verde, recortadas e encaixadas no céu; nos canhões com o brasão da coroa, à porta de inúmeros edifícios; na marginal que contorna a parte velha da cidade e o seu mercado vivo de gentes e de cores; nos museus fechados porque é hora de almoço; e ficou, sobretudo, no olhar de todos os que aqui vivem, sempre de braços abertos.
A bandeira de Omã é branca, pela paz, verde pela natureza de todas as esquinas, e vermelha pelo sangue que se derramou no caminho longo até à independência.
Voltamos à noite. Está fresca, já se disse. Na rua – onde o trânsito não faz prever a hora que, com a espera, avançou – há um multibanco teimoso e dois viajantes com o quarto por pagar.
- “Precisam de ajuda?”
A voz sai, num inglês torcido, de uma boca Omã, onde também está um cigarro. O homem tem vestida uma túnica – que em rigor se chama dishdasha – castanha. Na cabeça um lenço claro, enrolado, e nos pés – que são como os de todos os homens daqui, enormes, gordos e redondos – umas chinelas encardidas, de couro.
Ali Ahmed Al Kafiri arruma o dinheiro que levantou na carteira e sorri, agora com o cigarro na mão.
- “Vou deixar a minha família em casa. Em dez minutos volto e levo-vos a outro multibanco. Havemos de encontrar um que aceite os vossos cartões.”

Dez minutos de vento na cara, e Ali a parar o carro. A boleia não atrapalha, precisava de chá e de açúcar para a viagem do dia seguinte, para casa: mais de mil quilómetros até Salalah, a sul, virada para o Índico.
- “Não me interessa a vossa cara, a vossa cor, o vosso sangue. Ajudo-vos porque sei que quando for eu a precisar alguém vai ajudar-me com a mesma vontade. Somos todos humanos.” Conduz com calma e empurra as palavras com gestos firmes das mãos escuras.
Trabalha no Ministério da Herança e da Cultura e, como nós, percebe mal o que se lê nos olhos da maioria dos árabes dos Emirados.

- “Não abrem a boca. Até hoje não consegui perceber o que têm dentro deles. Não querem saber das pessoas. É perfume e nariz para cima”, brinca. “Mas sinto afecto por eles. Vocês não? O Islão ensina-nos a gostar de toda a gente; a amar todas as pessoas e todas as coisas da natureza. Eu gosto dos portugueses. A guerra é história; não há nada para odiar”, acrescenta.

Sente que é possível que os nossos antepassados tenham sido árabes. E sente que todos os que passam pelo mundo o fazem na condição de iguais, “porque todos nasceram a amar a sua mãe”.

- “O meu pai e o meu avô viveram em grutas, entre o deserto e o mar. Foi aí que nasci. Cresci com a minha família, com vizinhos e com viajantes. Houve sempre muita gente a viver connosco. Chegavam e ficavam sempre por algum tempo. Se viessem em paz ficavam e eram sempre bem-vindos. Dormiam a um palmo de nós.”

Estaciona o carro em frente a um hipermercado. Encaminha-nos para um corredor onde há quatro caixas multibanco. Segue para o chá e para o açúcar. E volta.

- “Deixo-vos onde vos encontrei?”

- “Não vamos atrapalhar?”

- “Claro que não atrapalham. Ficam-me a caminho de casa.”

Voltamos ao carro. No regresso passamos pela bondade nos olhos dos homens, pelas religiões, pelo seu Islão e pela vida. Ali pára de novo o carro perto do multibanco teimoso, mas a viagem continua por muitos mais minutos, nas palavras.

Trouxe-nos porque lhe ficávamos em caminho. Se não ficássemos, tenho a certeza de que nos traria na mesma.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Mãos de obra

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domingo, fevereiro 01, 2009

Pena suspensa pela saia

“Estou inocente... Estava vestido de mulher porque estava a treinar para um papel que vou desempenhar num filme, na Índia. Não tinha intenção de ir para o centro comercial assim vestido, mas recebi uma chamada urgente e tive que sair”, suspira, P.K., um indiano de 45 anos. Está sentado no banco dos réus, no tribunal do Dubai.


Era gerente de uma loja do Mall of the Emirates, ia sendo estrela de um filme de Bolywood, e, ainda antes disso, presidiário.


Um polícia à paisana apanhou-o vestido de mulher: “A roupa era muito brilhante, ele tinha soutien, maquilhagem, uma peruca e perfume de mulher”, conta o agente.


Pelo horrendo delito, P.K. foi condenado a seis meses de pena suspensa e a 10 000 Dirames (2 000 Euros) de multa.


Compassivo, o juiz, confiante na reabilitação do criminoso iniciado – “Estou convencido de que ele não repetirá o crime” – deixou a pena suspensa por três anos, durante os quais o arguido não poderá repetir a maléfica proeza.


Não sei quem é P.K. nem de que cor era o seu vestido. Apanhei-o no jornal de domingo, na liberdade da imprensa para servir a ditadura.


- “É um homem cheio de sorte”, sorri um árabe, sentado na mesa ao lado, com o canto do olho posto no meu jornal, igual ao seu. “Sou saudita, já vi enforcados por muito menos.”