terça-feira, fevereiro 24, 2009

O vizinho do cão

Eu tenho um vizinho do cão. Antes era o vizinho dos gatos. E antes disso era de novo o vizinho do cão. Foi sempre o mesmo, o homem. Os bichos é que foram mundando.

“Anda, Nina!”
Calculo que o vizinho do cão se chame António ou José, e que é por isso – por ter uma graça corriqueira – que importa mais que seja do cão, dos gatos, ou do cão outra vez.

“Anda, Nina!”

É um homem de estatura média, com idade e careca de avô. Nunca deixou de usar os seus Ray-Ban verdes. É do sporting e tem um pé, que é como quem diz o corpo todo, a fugir para a curiosidade sobre as vidas alheias.

“Anda, Nina!”

O vizinho do cão leva várias vezes o bicho à rua. Não pelo passeio nem pelo chichi do animal, mas para poder cruzar-se com o maior número possível de vizinhos nas escadas. O vizinho do cão não gosta de me ver apressada, e tem sempre conselhos para me dar:

“Não se enerve, Joana, não ande à pressa, que isso mata a gente. Não vale a pena andar sempre a correr. A gente sai da cama e começa logo a sentir stress. Depois continua pelo dia afora, truca-truca-truca-truca, nunca mais pára. Vá para o Jumbo fazer umas caminhadas, relaxar. Ainda hoje lá estive!”

“Anda, Nina!”

O vizinho do cão tem uma mulher que condiz consigo vezes dois – por ser enorme, por ter o dobro do cabelo e por falar duas vezes mais alto do que ele (e do que a generalidade do mundo).

Tem também um neto tão feio quanto ruivo, de quem gosta muito – “Porque a gente acarinha sempre mais os que mais precisam, filha. Sendo menos bonito a gente tem que gostar mais”, explicou-me a minha avó.

E tem, irrefutavelmente, a causa do condomínio colada à pele. O vizinho do cão é a única pessoa em Portugal que gosta de administrar um condomínio. Mais: é a única pessoa que tem uns ténis especiais de corrida – no sentido da utilidade literal do objecto – para subir e descer as escadas do prédio e fazer as cobranças, convocar pessoalmente os condóminos para as reuniões, e aproveitar para fazer queixa de quem não paga.

A parte mais importante das coisas que o vizinho do cão tem é o bicho. E o bicho não é bem um cão, é a Nina.

“Anda, Nina!”

É gordíssima, amarela-ruça-de-velha, e tem microcefalia. Está surda, tem reumático e tem que subir a escada ao colo, porque, atesta o vizinho, “tem medo dos degraus”. A Nina não come o meu gato porque não o vê nem o cheira, mesmo quando ele se põe à frente do seu focinho, a provocá-la.

A Nina é uma cadela que já morreu mas que, por respeito ao vizinho do cão, continua a andar.
“Anda, Nina!”

3 comentários:

Nádia, a mais fixe disse...

Que delícia de texto! Venho aqui ler-te quase todos os dias e fico quase chateada quando não encontro novidades. Vou sabendo de ti todos os dias sem ter de te falar, o que - de resto - só trás vantagens! :D

Beijinhos*

LiMpA_ViAs disse...

Adorei este texto! Ri-me, ri-me e ri-me! Gosto do Dubai, mas isto sabe-me melhor!

Cátia disse...

Estou como o Dani... comecei bem o dia a ler este texto, fez cócegas mesmo! Beijinho minha querida*