sábado, novembro 01, 2008

A neta do meu avô

Entrei distraída. Não tinha em momento nenhum pensado que ía passar naquele corredor. No corredor que não me passava pela memória há anos, mas que estava muito bem desenhado cá dentro. E foi uma analepse.

Estava tudo exactamente no mesmo sítio. Tudo como sempre, menos a minha avó na cozinha, a pedir-me para não andar a desapertar as pipas de vinho do Vasco, o gordo enorme e barbudo. Tudo como sempre menos o meu avô, que costumava assar peixe e carne naquele grelhador que estava apagado e atulhado de caixas.

O chão tinha as mesmas pedras de mármore mal cortadas, e quase as mesmas pessoas no corredor para a sala do fundo, a fumar cigarros. Menos o meu avô a acender os cigarros que o levaram.

E estava mais frio.

Podia ter feito tudo o que sempre quis fazer ali: procurar esconderijos, perseguir bandidos e ser princesa de um castelo da minha imaginação. Podia ter bebido vinho às escondidas, porque estava tudo no mesmo lugar mas não estava lá ninguém.

O meu avô não veio perguntar-me o que eu queria jantar. Não veio, de todo, saber de mim. A minha avó não apareceu para me dar um agasalho, apesar do frio que se pôs. Está a ver a novela, que é mais fácil fintar a dor com as ideias nubladas.

E não cheirava a grelhados. No lugar do meu avô estavam os chinelos brancos de alguma cozinheira. E não havia luz.

E estava mais frio ainda.

Perguntei aos empregados se se lembravam dele. Os que não lembravam sabiam quem tinha sido e viam-me os olhos húmidos e o peito cheio, quando dizia quem era.

Sou neta dele. Sou neta dele. Sou a neta do meu avô. E estou a transbordar de saudades, como se vê, porque o meu lábio de baixo já só treme, porque nunca mais o ouvi assobiar nem pude correr para lhe dar um abraço. Porque tenho saudades do cheiro do carro dele, que era o nosso carrinho.

Porque não posso contar-lhe as minhas conquistas e chorar-lhe os medos que trouxeram com elas; porque não posso dizer-lhe que tiro fotografias para me lembrar dos nossos passeios no campo.

Porque gostava de lhe dizer que os pinhões que tirávamos das pinhas tinham um gosto muito diferente do que os que as outras pessoas comem.

Porque não consigo lembrar-me se alguma vez o deixei com a certeza de que o amava.

Porque queria que ele soubesse que fiz como ele me disse, e apertei as mãos com força para não chorar pelos mortos, porque eles nunca se vão embora.

O meu avô marcou encontro comigo, comigo distraída. Deixou tudo no lugar e não apareceu. Não apareceu ninguém. Ninguém, menos as saudades dele, que há muito não me chegavam aos olhos.

Pelo meu avô posso chorar, porque ele não morreu. Só deixou de aparecer cá fora. Mudou-se para dentro de mim.

6 comentários:

Cátia disse...

Oh princesa, gostei tanto do que escreves-te, veio-me a lagriminha ao olho...estão sempre dentro de nós, isso é certo! ;) Beijinho*

simão disse...

Este texto tocou-me muito fundo, tanto que o vim ler novamente. O momento favorece que me comova ao percorrer este teu desabafo de sentimentos.

Que continues a escrever, é o que desejo.

Um beijo

Anónimo disse...

I LOVE YOU ! I LOVE YOU! I LOVE YOU
E AINDA TIVE A SORTE DE TE TER COMO MINHA FILHA BEIJINHO !!!!!

Sofia disse...

Queria comentar... Mas não sou capaz. Sabes bem que não, por todas as razões...

Um beijo*

carmo disse...

tudo o que escreves-te me deixou comovida as vezes esqueço-me que voçes crescem mas depois ler este texto so tenho mesmo que aceitar e dar-te os parabens pelo trabalho que estas a realizar beijocas grandes ca te esperamos pincesa. zara

sara olímpia disse...

como eu sinto saudades daquele rapazolas de cabelos grisalhos que era o meu avô, que já pouco ouvia, mas que em tudo concordava comigo, porque eu sou a menina dos olhos dele. E porque eles eles nunca partem, e porque os sentimos todos os dias connosco. Parabéns pelo teu artigo Joana. Faço minhas as tuas palavras. Será que ele sabia o quanto eu o amava?

Sara, ex-colega de cambridge
Passa no meu blog
www.flying-pegasus.net
Há mt que nao escrevo.. tenho perdido as palavras.