terça-feira, novembro 18, 2008

Cabo Verde inteiro numa carrinha

É domingo. Um dos do meio de Novembro. Sucopira, cidade da Praia, ilha de Santiago, Cabo Verde. Um calor peganhento.

E gente, e carros em todos os sentidos, e inversões de sentido de marcha em qualquer lado. “Há semáforos mas estão desligados”, explica o taxista. “Gastavam muita luz. E era preciso fazer muita formação às pessoas para respeitarem e pôr a polícia a castigar quem não respeitava. É mais fácil ter um polícia a coordenar o trânsito nas zonas mais complicadas.”

- “Quanto custa a viagem? Onde está o taxímetro?”

- “Não tem taxímetro. É 500$.”

Soma e segue. O táxi aqui é como os bolos da avó, a olho.

O destino é Assomada, no interior, a uns 50 quilómetros da Praia.

- “Assomada? Aqui mais barato, mais bom. Viaja aqui. Mais depressa chegar lá. Anda!”

São uns seis, munidos da persuasão de 60. São ajudantes dos carros que levam os viajantes até ao interior.

Poucas pessoas têm carro próprio. A maioria anda de autocarro, a 38$ a viagem. Os que têm pressa e dinheiro andam de táxi. Para viajar até ao interior há carros próprios, equipados com bom material e gente formada no assunto.

Com três lugares por preencher, o motorista arranca. O ajudante leva meio corpo de fora da janela: “Bu kre bai pa ‘somada? ‘somada? ‘somada?”. Acena, grita, assobia, esbraceja. Vai receber 300$ por cada carro que encher. Quando o trabalho termina, sai e segue, nunca faz a viagem até ao destino final.

A carrinha tem entre dez e 15 lugares, dependendo de quantos passageiros é preciso arrumar lá dentro. Há tábuas que fazem maravilhosamente a vez de bancos e, bem encaixadas, nem deixam que se dê pela diferença. 500$ ida e volta.

“‘somada? Bu kre bai pa ‘somada? Anda!”

A tripulação fica completa no regresso a Sucopira, depois de mais de meia hora às voltas pelo centro da cidade. Antes da partida efectiva ainda há tempo para gelados baratos, que vêm, numa geleira azul que uma senhora enorme traz à cabeça, entre o derretidos e o recongelados, colados uns aos outros.

A paisagem corre para trás, onde fica a cidade; e o campo vai chegando, muito mais verde do que o que o calor de há pouco deixava imaginar. Os dois cenários misturam-se na fente do prédio moderno onde estão três vacas a pastar. Verde, mais verde e montes a crescerem do chão.

Ao fundo, à direita, um casal acena, de sacos nas mãos: “N’kre bai pa ‘somada!”. O motorista encosta.

- “Aperta qui cabi!”

E coube. Estava lá Cabo Verde inteiro. Atrás de mim mãe e filha, “vindas da missa, do hospital e do mercado.” À frente uma história de amor com mais de 50 anos e com dez filhos.

- “Se não for com amor como é que faz filhos? E dez, ainda por cima. É amor, é muito amor. Agora também tem amor, mas já não faz mais filho.”

E a adolescente maquilhada que tinha um penteado moderno, com canudos. E miúdos pequenos a fazerem birras, e mais um homem magro e o seu primo, de boné. E os outros da frente, com quem não pude conversar pela mesma razão pela qual não pude despir o casaco: o espaço era tanto como o frio.

Mas coube tudo. Na carrinha que nos ficava justa ao corpo coube a ilha inteira mais o meu remorso por não tê-la fotografado.

2 comentários:

mike disse...

Gostei muito da descrição e da pequena história ;) A lógica do cabe sempre mais um, aí, em Cabo Verde, é uma verdade inegável.

Beijo!

ana s. disse...

Como eu sei da lógica do cabe sempre mais um... não em Cabo Verde mas noutros destinos também com o seu encanto. Nós rimo-nos e ficamos com esta história para contar no meio de tantas, mas até ficamos mais ricos depois de uma viagem destas com tanta gente que conhecemos.

Estou por aqui a acompanhar-te online quando posso. Que corra tudo bem. Estou a adorar as fotos e as tuas histórias :)

tudo de bom!