sábado, janeiro 31, 2009

O deserto ao fundo da rua


Esta estória, que queria acabar no deserto, começa dentro de um jipe onde está um paquistanês – com as mãos no volante –, uma argentina e um espanhol – com as mãos um no outro –, uma queniana, dois portugueses, um chinês acordado e outro sempre a dormir.
O homem com o volante nas mãos vai descontraído, a manter o estilo que condiz com a capa da caixa de lenços de papel que traz no tablier, cheia de dourados. À esquerda, junto à janela, traz um peluche, para mostrar às miúdas que é um tipo sensível. A cereja do bolo do carácter vem pendurada no retrovisor, onde um sino de plástico, atulhado de pingarelhos, compõe o ramalhete.
A argentina e o espanhol olham-se com um ar tolo de lua-de-mel, e filmam-se, de boca aberta, pasmados com a maravilha-de-fresco que vêem, até ver, um no outro. O chinês acordado, que se senta, vestido de verde, no banco de trás, fala pelo que vai à frente a dormir, no lugar do co-piloto, e pela queniana, que se veste a condizer com ele.
O deserto começa a chegar aos poucos, pelos lados. O chinês acordado tenta dizer zorro em inglês. Tenta de novo. E volta a tentar. Desiste.
É tempo de calibrar os pneus para fazer o carro trepar pelas imensas dunas de areia. O deserto aparece logo depois da curva e, vendo bem a coisa, não é tão deserto assim: há famílias em piqueniques e várias caravanas de safaris. Por sorte, sobra uma duna ou outra.
A música sobe para se sentir melhor a coisa. O rádio apanha quase sempre: este deserto, é uma sorte, fica mesmo ao fundo da rua.
O jipe faz-se às dunas. Começa a saltar, a gingar, e a fugir. As ondas de areia chegam às janelas. Ouvem-se, e percebem-se só pelo tom, asneiras em todas as línguas.
O jipe cai quase de frente, quase rebola, de tão encostado à direita, e tudo grita. O chinês que dormia já acordou e o outro, com o susto, disse zorro melhor do que o espanhol.
O sol vai descendo e é preciso parar para o ver por-se gigante-laranja, enorme-enorme, lá ao fundo, depois das famílias e onde acaba a areia clara e fina.
Com os minutos contados, os guias apressam os turistas para o jantar. Mais dunas, gritos e asneiras até ao acampamento.
A tomar conta da entrada há três camelos ramelosos, cansados e fedorentos à disposição do rabo de qualquer turista, excepto do da senhora redonda que está agora a rebolar-se no chão, ao lado do camelo que não estava para ser urso.
shisha, chá, café, tralhas de levar para casa com ícones do Dubai, indianas a pintar as mãos das meninas, espaço para as máscaras e, logo depois das filas de uma hora, o jantar. O ambiente é animado. Há turistas bêbedos e outros só parvos. Há paquistaneses e indianos com um ar cansado e há o grande espectáculo da noite, quase-quase a rebentar, anunciado pelo rugir insuportável de várias colunas.
A dança do ventre chega ao palco no corpo de uma bailarina de Alhos Verdos ou de Oliveira de Azemeis, que é máscula e praticamente sexy. Tem franja, cabelo comprido e corpo que sobra ao vestido. Com o ritmo tosco que tem no corpo, a odalisca-pinguim vai animando as hostes e convida o público ao palco, para o delírio. A delirar ainda está uma sexagenária francesa, de cabelo curto encaracolado e olhos arregalados. Dança para manter a postura e não pede ajuda; para todos os efeitos está a divertir-se e não está perdida; só já não se lembra em que curva do palco redondo entrou.

Cá fora há palmas entre os restos do jantar, fotografias e a dança dos que têm vergonha das luzes. A música já é só uma chinfrineira disforme.
Chega, com a sobremesa de sopas de pão com mel, um fulano num traje risível, que depois se faz todo luz e dança com um espécie de fatia de pizza gigante por cima da sua cabeça. É psicadélico e quase tradicional.
A multidão não sossega, gosta e pede mais. As colunas a rugir. Mais café e chá. E palmas, e palmas, e vivas e, sem se dar por isso, os guias a empurrarem toda a gente para os carros, que-acabou-a-festa-acabou-a-festa-foi-giro-não-foi?.
No caminho de volta, o chinês do banco da frente dorme como um bebé e o do banco de trás não voltou a conseguir dizer zorro. Arrisco que todos pensam em como foi bom rir até sentir a barriga doer.


Afinal, fomos ao circo. Foi fantástico, mas fiquei com pena pelo deserto; ficava mesmo ali ao fundo da rua...

2 comentários:

Miguel disse...

Já vi que temos um ORIGEM:ALMADA para dez edições seguidas... Beijinhos e volta rápido que o tempo sem ti nunca mais passa...

me disse...

Que boa ideia! *