segunda-feira, janeiro 19, 2009

Vestir as calças

O Gold Souk é um dos maiores mercados de ouro a retalho do mundo, e eu cheguei na hora de ponta. Tudo transpira pressa.
Passa das sete da tarde e o que era um burburinho deu uma cambalhota e é uma gritaria. O som confirma que é um mercado. Os brilhos confundem a cabeça. O mercado é das vendedoras feias, gordas, aos gritos, e das bagatelas. Não é das senhoras finas, de sacos de compras, não é das lojas a transbordar de ouro.
Há bebidas em tabuleiros, ao colo de vendedores ambulantes, e há homens que correm – ora atrás, ora à frente – de carrinhos de mão: cheios para um lado, vazios para o outro.

Os turistas arrastam-se, com sacos nas mãos, exaustos. E o mercado continua a corrida.
Os árabes vão passando, sempre com um nariz tão inclinado que os olhos, pobrezinhos, nunca conseguem baixar a linha do ombro, e precisam de olhar o mundo de cima, e sempre pelo canto do olho.
Parei os olhos nos olhos que espreitavam de um imenso e imponente tecido preto.

Umas mãos preguiçosas, como o andar em que a vi chegar, nuns chinelos muito sujos, e sentar-se. Na ponta das mãos, que seguram num telemóvel peganhento, a pintura das unhas a perder a cor.
Shaheen Noori é indiana. Nasceu em Bombaim e mudou-se para o Dubai com o marido há oito anos, quando casou. É muçulmana.

Tem 28 anos e duas garotas encardidas e fedorentas.

Com atenção, percebo-lhe o desenho do nariz pequeno, e, porque o vento ajuda, arrisco que tem uma boca conforme e lábios finos.

A curiosidade dos seus olhos prende-se na dos meus.
- “Não usas véu?”
- “Não sou muçulmana”, sorrio.
- “Cristã? Nenhum tipo de religião? Se não consegues decidir-te por nenhuma eu posso ajudar. A religião islâmica é a melhor do mundo. A melhor de todas, a melhor!”

Pedi-lhe razões. Queria ouvi-la desabafar.

Queria que acabasse por me confessar o quão oprimida se sentia; queria ouvi-la lançar pragas ao marido, a quem tem que obedecer; queria que se lamentasse pelo calor que aquele trapo preto interminável lhe faz; o aborrecimento das rezas; as outras mulheres do marido... Queria salvá-la daquele véu e ajudá-la a queimá-lo e a mostrar a cara ao mundo. Eu ia ser essa!

- “A minha roupa é extremamente confortável e versátil: estou bem quando está frio e também estou bem quando está calor. E é uma protecção contra os olhares invasivos dos homens. Tu és mulher, sabes como são insuportáveis...”
Respondeu-me sempre entre gargalhadas, desembaraçada, convicta, senhora de si.
A esconder o sofrimento, pobre-miúda-grande-mulher.

- “E o teu marido, como é para ti?”
- “Perfeito. Eu nem trabalho. Estou em casa. A maioria dos dias tenho quem tome conta das crianças.”
Ela vai acabar por ceder. Vai desabafar comigo, a pobre. E insisti, movida por um heróico espírito de missão.

- “Ele tem mais mulheres?”
- “Mais três. Temos muita sorte. A religião islâmica protege as mulheres; os homens são sempre mais pequenos.”

- “Não estou a perceber. Parece-me muito injusto. Tu toda tapada, só com um marido, e ele a transbordar liberdade, podendo escolher com que mulher vai dormir?”

Senti-a sorrir-me divertidamente por detrás do véu.

- “Tu nunca sentiste vontade de que o teu marido te desse uma folga? Assim está repartido. Vendo bem as coisas, é um descanso. E depois, pensa comigo: numa casa com um homem e quatro – com as pequenas, seis – mulheres, quem manda, efectivamente?”

E o telemóvel tocou. Despediu-se à pressa, enquanto punha ao ombro uma mala preta, brilhante.

- “O meu marido está à minha espera”.

Levantou-se, despida da preguiça com que chegara, e encontrou-se com o dito três lojas à direita daquele banco. Ouvi-a murmurar qualquer coisa enquanto empurrava as duas miúdas na sua direcção. Fez-se outra, altiva e sensual, e entrou na joalharia imediatamente a seguir, pronta para comprar o mundo.

Eu arrumei o bloco e vi as horas. Levantei-me e pus-me a caminho da paragem de autocarro. E fui para casa, fazer jantar para quatro.




2 comentários:

João Pedro Venceslau disse...

Muito boa... Mais uma das mil e uma histórias arábicas que a cada dia que chego a casa do trabalho gosto de ouvir... :)

Isto porque apesar de já ser o segundo ano que estou por estas paragens nunca tive oportunidade, nem (secalhar) coragem, para tentar interagir muito com os autoctones...

Continuação de uma boa busca de novos amigos arabicos que eu cá estou ancioso por novos depoimentos... :)

Beijokas do Al Ramalah

P.S.- Obrigado pelo jantar... he he

Eliana Silva disse...

Presunção ocidental, baby? =)
Kiss ingles com a boca suja de chocolate