segunda-feira, junho 15, 2009

A Tirónia

Chamámos-lhe tantas vezes Tirónia que passados uns anos tivemos que lhe perguntar o seu verdadeiro nome.

(Viveu sempre aqui na rua e já era velha quando eu nasci.)

Vinha aos fins-de-semana ao restaurante, imensa, com uns papos debaixo dos olhos, a saber se havia restos de comida para o Tirónio.

Imaginámos sempre um cão à sua medida: grande e guloso.

Antes da recolha bebia “uma bica para arrebitar”, e comia “um doce que se pudesse dispensar, mesmo que já não estivesse muito fresco”. Às vezes era “uma sopinha do cozido e uns quadradinhos de pão duro, para dar consistência ao caldo”.

Num carrinho de compras com rodas, que ela puxava a custo, levava semanalmente quilos de restos de comida, acondicionados em caixas herméticas.

O bicho havia de apanhar grandes barrigadas, pensávamos. Havia de ser tão gordo que mal se mexia, como a dona.


A Tirónia gostava de falar de “poucas-vergonhas”. Sempre que podia contava a história de “uma prima que tinha engravidado enquanto estendia a roupa” ou a de “um lagarto que subia pelas saias das meninas que iam ao campo lá na sua terra, sem nunca ficar abaixo dos joelhos nem acima do umbigo”.

Vestia sempre calças e t-shirt de algodão. Por cima disso um bibe e na cabeça um chapéu, de pano ou de palha, sempre com um elástico. No inverno usava apenas, por cima disso tudo, um casaco de malha grosso.

A Tirónia nunca usou sapatos, sempre uns chinelos ortopédicos, velhos e gastos.

(Quando eu era pequenina os chinelos dela já eram velhos.)

E assegurou sempre que a sua vida fora desgraçada: a mãe não a quis e ela foi, “de pequenina, servir para casa de uma senhora que não gostava dela”. Casou duas vezes, “dois maridos lhe morreram”: “Nunca tive pinga de sorte”, garante.

Lembra-se muitas vezes, e com gosto, do ranho que limpou a Manuela Moura Guedes, de quem foi ama: “Via-se que havia de ser boa cantora, jornalista e política”.

A D. Ana vive numa casa velha, ao fundo da rua. Um dia vimo-la a passear carinhosamente o Tirónio. Afinal é um pincher. Ela nunca mais voltou para lhe vir buscar comida.

1 comentário:

Andreiovsky disse...

...cheias viagens, doces de melancolia.