terça-feira, outubro 13, 2009

A orquestra depois de Yehudi Menuhin

A escola – que pode ser na Bélgica, na Estónia, França, Alemanha, Hungria, Irlanda, Itália, Holanda, Polónia, Portugal, Espanha, Escócia, Suécia, Suíça ou Brasil – fica na periferia de uma grande cidade, à beira de um bairro social. O pequeno ginásio tem cortinas de pano cru com desenhos feitos, a pincel, por mãos pequenas. Tem o chão verde, com 15 alunos do 2º ano em cima dele. A figura alta, com sotaque, em frente aos pequenos, dá ordens, ao som da música que sai de um rádio. Esta é uma das três pausas que as crianças fazem na rotina da sua semana e na violência do seu bairro: têm aulas de música, de expressão dramática e, hoje, de movimento e dança. A culpa é do MUS-E.

Este programa foi criado e desenvolvido pela Fundação Internacional Yehudi Menuhin, em 1993. Chegou à primeira escola em 1994. Hoje envolve 30 000 crianças, 600 artistas e 400 escolas primárias.

- “O exercício é imaginar. Imaginem que são o meu espelho. Têm que imitar os meus movimentos, tudo, tudo! E seguir a música. Oiçam a música!”, pede o monitor.

Os alunos imitam, e seguem. Estão concentrados na tarefa. O monitor conta que “costumava ter uma postura mais rígida nas aulas”, mas que, com o tempo, se apercebeu de que “quanto mais liberdade criativa dava aos alunos, maior era o seu interesse”.

Num banco corrido, de madeira, ao fundo, a professora da turma assiste à sessão e ajusta pormenores.

- “Aperta os atacadores, para não caíres”, para um. “Não ficas mais confortável sem o casaco?”, para outro. “Fecha a braguilha”, sorri para um terceiro.

O monitor continua, e exemplifica enquanto fala: “Vamos passar muito perto uns dos outros, mas sem tocar. Sempre sem tocar”. Eles aderem, entusiasmados.

- “Agora sentem-se no chão, vamos acalmar, fechem os olhos, vão-se deitando, relaxem”.

As crianças estão sujas e despenteadas, vestidas com roupas que não lhes assentam; algumas – muitas – estão calçadas com sapatos rotos ou pequenos demais.

- “O efeito das sessões não se nota a curto prazo. Ou seja, eles não saem daqui para a aula imediatamente mais calmos. A longo prazo temos notado uma diferença enorme. Aqui eles têm um equilíbrio que lhes falta no bairro”, afirma a professora.

Para o monitor, “estes alunos evoluíram muito na forma como procuram concretizar as tarefas, despertar para novos movimentos”.

A professora sente-os “diferentes na forma como se relacionam, na forma como se olham. Há uns anos todos os movimentos, e mesmo o olhar, tinham agressividade; não conseguiam organizar-se para brincar no recreio sem a presença de um adulto. Agora confiam uns nos outros, estão mais concentrados, sabem estar numa sala de aula e conseguem cumprir regras, conseguem... quer ver?”, perguntou.

A aula terminou. O monitor despede-se e a professora começa a contar até dez em voz alta. “UM, DOIS, TRÊS” – correria e burburinho; “QUATRO, CINCO SEIS” – colocam-se em fila, ainda sem grande rigor, virados para a porta; “DEZ” – em fila indiana, irrepreensível, prontos para sair.

A professora não esconde o orgulho: “Isto seria impensável há três anos. Agora é normal”.

Programa MUS-E: a Arte na escola

O MUS-E traz, desde 1994, as artes para o ambiente escolar e ajuda a que o desenvolvimento das crianças seja harmonioso e sustentável.
Os artistas, que trabalham como monitores, apresentam aos alunos novas formas de pensar, criar e interagir, para promover a integração social e reduzir os níveis de violência, racismo e exclusão social entre os mais novos.

Pedro Saragoça, coordenador do programa MUS-E em Portugal, afirma que este é um projecto realista: “Não trabalhamos para utopias. Não temos a presunção de, com este programa, trazer a paz ao mundo”, diz. “Ficaremos muito felizes se conseguirmos contribuir para que as crianças sejam mais equilibradas, mais tolerantes e menos violentas, e para que estes valores sejam também transmitidos aos bairros onde elas vivem”.

O MUS-E dirige-se sobretudo a escolas inseridas em áreas co-habitadas por culturas diversas, onde existem problemas sociais graves e elevados factores de risco de exclusão. O desafio é aproveitar o potencial artístico das crianças para promover o diálogo entre culturas: a arte é uma ferramenta para alcançar o respeito por si próprio e pelos outros.


Pretende-se também desenvolver a capacidade das crianças para ultrapassarem dificuldades; despertá-las para o prazer da descoberta e do conhecimento, integrando-as nas tradições da sua localidade, para que possam encontrar as suas raízes e, posteriormente, plataformas de diálogo com tradições de outras culturas.

Pedro Saragoça refere que, quando o programa chega a uma escola, “a situação que se encontra é normalmente bastante difícil”: “Há, na maioria das vezes, problemas muito graves por resolver: níveis grandes de agressividade entre as crianças, ausência de regras comportamentais básicas... Mas com o tempo as coisas melhoram”, acrescenta.

“Depois, lentamente, começamos a conseguir fazer-lhes propostas. Elas aprendem a ouvir e começam a demonstrar um interesse crescente. Mas o caminho a percorrer é sempre grande. Quanto mais pequenas forem, menos resistência apresentam, mais fáceis são de entusiasmar”, conclui.

“A vida é uma arte e cada momento devia ser um momento de criação”, Yehudi Menuhin

No início do projecto, Yehudi Menuhin escreveu que “a música, o som de uma voz, ouvir e cantar formam a experiência mais natural, mais comunicativa e mais civilizadora de uma vida.” Por isso, considerava “essencial uma experiência dos sentidos”.

Nesse sentido, os elementos essenciais do MUS-E são a dança e o canto. Não se utilizam instrumentos musicais, à excepção da percussão.

Actualmente, o programa inclui também expressão dramática, mímica, teatro, escrita criativa, técnicas de narração, artes visuais, arte contemporânea, pintura, escultura, criação e construção de instrumentos, multimédia, artes marciais... As escolhas dependem da idade das crianças, dos objectivos dos monitores, das culturas representadas na escola e dos projectos que já existem.
O que guia o programa, afirmou Menuhin, “é a resposta das crianças, a sua alegria em aprenderem a dançar, a cantar, a conviver”.

Uma obra do coração

Yehudi Menuhin não se lembrava de nada na sua vida que tivesse acontecido antes de ter decidido ser músico.
Deu o seu primeiro concerto de violino aos 5 anos; aos 11 já queria conduzir uma orquestra. Ao ouvi-lo tocar, Albert Einstein proferiu uma frase que havia de tornar-se célebre: “Agora sei que existe um Deus no Céu”. Humphrey Burton, biógrafo, recorda que “ele nunca foi apenas um músico; desde muito cedo quis fazer outras coisas, para que a sua música pudesse trabalhar para a humanidade”.

Em 1991 criou a Fundação a que deu o seu nome, para “reagir contra o fenómeno da redução, quer da dignidade, do valor, da originalidade, ou da criatividade dos seres humanos”, através da arte.

Yehudi Menuhin deu voz aos que não a tinham. Morreu em 1999, aos 82 anos, mas não partiu: deixou a música do seu violino nos ouvidos de todos e o mundo a conversar.

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