domingo, março 22, 2009

A máquina de lavar

«Josyane de Bagnolet nasceu de subsídios e de um feriado em que a manhã se espreguiçava, feliz, ao som de “Je t’aime, tu m’aimes”. (...) Vieram depois mais dez irmãos, trazendo como recompensa aos seus pais a máquina de lavar, o frigorífico, a televisão, o carro... »

Christiane Rochefort, Les Petits Enfants du siècle

Estava a sentir os buracos da estrada metidos no corpo pelo balanço do autocarro sujo, cheio e indiferente às janelas abertas: irremediavelmente fétido. Estava tudo nas minhas costas.

Ela tinha uma voz grossa, como as palavras grosseiras e barristas que disparava, como quem ataca, à força de se defender.

À volta, depois da porta do autocarro, a mesma mulher tinha a parte de Oeiras onde o sol não bronzeia mas faz suar. Daqui não se vê a praia nem as pessoas bonitas, com óculos de sol espelhados e panorâmicos, como diz que dá estilo. Aqui há guetos de betão e os feios arrumados neles.

Imagino-a a segurar na barriga redonda com as duas mãos, enquanto a oiço a fazer contas.

- “Quando ele nascer compro a máquina de lavar roupa. A assistente social disse que o subsídio era 70 contos”.

Ao lado dela uma voz mais fina, também de mulher, a concordar. E ela a voltar à carga.

- “Fico sem dinheiro nenhum mas não lavo mais roupa à mão. E como vou começar a receber aquele tanto a mais ao fim do mês, dá para safar. O miúdo também há-de usar a máquina, acho que não tem mal nenhum. E dá-me jeito”.

- “Não tem mal nenhum, e dá-me jeito, e eu não engravidei de propósito, não foi pelo dinheiro, mas pronto, dá-me jeito, vou comprar a máquina, custa muito lavar roupa à mão, claro que me dá jeito mais aquele ao final do mês, e também parei com a pílula, mas não era para engravidar, não era pelo dinheiro”, repetia, com a voz a vir do queixo, colado ao peito, para que os olhos pudessem estar no chão, até ficar sem fôlego.

Senti movimento no banco de trás e a lengalenga começou a vir de cima para se afastar depois, em direcção à porta, e sair daquele assunto.

- “O miúdo vai me atrapalhar, mas o dinheiro faz-me falta. Todas fazem isto. E agora olha, já que vou ter o trabalho de o criar, ao menos aproveito o subsídio. Não lavo mais roupa à mão”.

3 comentários:

Anónimo disse...

Miúda, já pensaste em escrever um livro? A sério! Eu que não tenho paciência para blogs, gosto de ler o teu! beijinhos da ex-ex-ex editora do DE, Marta R**** :)

Nádia disse...

Epa, pois! Um livro é que era! Tem é de ter o nome da outra para vender... toda a gente escreve livros, também podes! ;)

Beijos*

LiMpA_ViAs disse...

caramba! comentario no texto anterior era para este!!!! dá para perceber!