
Os 13 núcleos familiares que se distribuem pelos cerca de 280 hectares de terra do quilombo são todos descendentes de três escravas negras que vieram, no século XIX, trabalhar para uma fazenda: A vovó Antonica, a vovó Camila e a tia Maria Luísa.

As crianças que correm no pátio perto da associação de moradores no intervalo das aulas são a sexta geração deste quilombo.
À volta é tudo verde, fresco. Os caminhos são de terra. Da tradição pouco sobra para além da cor da pele de quem aqui vive, da forma do artesanato e da casa onde ele é vendido. A maioria das famílias vive em casas de tijolo sem acabamentos e com antenas parabólicas.
A escola e a igreja são construções convencionais. Antes de se chegar ao campo de futebol de terra batida há um pedaço muro onde desenharam um negra com um filho perto e onde escreveram: “Eu peço a Deus que ilumine minha comunidade trazendo mais cultura e menos malandragem”.
Wagner do Nascimento, ou Waguinho, presidente da associação de moradores, conta que “depois da conquista da terra [o Campinho obteve a titulação coletiva das suas terras apenas em março de 1999, depois de mais de 30 anos de luta], a luta é para frutificar”.
O desafio do quilombo hoje é “desenvolver a comunidade com base na agricultura familiar, no artesanato, no manejo dos recursos naturais conscientes e promover a sustentabilidade do grupo”, diz.Metade das pessoas do quilombo vive das atividades comunitárias que aqui se desenvolvem, do cultivo da terra ao restaurante, passando pela casa da farinha ou pelas guiadas a turistas.
Esta terra dá, garante Waguinho, “antes de comida, liberdade, porque não há cercas, não há muros. A terra permite à comunidade relacionar-se com a Mata Atlântica e isso ajuda o nosso trabalho sócio-ambiental”.

Mais de metade da comunidade vive desta terra e quem trabalha fora, acrescenta Waguinho, “está a organizar-se para encontrar formas de trabalhar aqui”.
O quilombo é porta para a liberdade e arma para a luta contra a discriminação: “A população negra foi sempre a mão-de-obra do desenvolvimento do Brasil, muitas vezes escrava. E o nosso grande desafio é que isso mude. Queremos combater o racismo velado que existe no Brasil. Queremos o desenvolvimento a partir do nosso conhecimento, da nossa história de luta”, defende.


