quinta-feira, fevereiro 26, 2009

De braços abertos, a segurar o céu

O céu estava todo azul e o Cristo alto de cimento estava, como sempre, a segurá-lo, de braços abertos. Era ainda a altura do dia em que as subidas fazem transpirar.

Ela caminhava com a ajuda de uma muleta, e ele estava parado de costas para ela. Ele continua a ser o Cristo alto de cimento. Ela, ia dizer-me depois, era Fernanda da Conceição Alves.

Trazia vestido um casaco preto ruço e grosso, pelo tornozelo, calças de flanela e um cachecol cinzento, enrolado ao pescoço. Fernanda tem a cara amarrotada por rugas grosseiras, profundas, mas os seus olhos são da cor do céu que o Cristo alto de cimento segura com os braços.

- “Eu ando aqui perdida, não sei onde ando”, suspira. “Ninguém me acode!”

Saiu de manhã de casa para ir namorar e perdeu-se.

- “O meu marido morreu há seis meses. Meu rico marido! Ia ao cemitério vê-lo, porque tenho saudades. Mas já não tenho cabeça. Perdi o tino. Moro no Bairro no Pica-pau. Tenho que apanhar o autocarro”, apressada, apressada.

Mas não sabia onde ia apanhar o autocarro nem que autocarro devia apanhar. Fernanda ouve mal; não percebe nenhuma palavra que lhe chegue ao ouvido mais baixa do que um grito. A pressa que levava nas pernas não denunciava nem a cabeça baralhada, nem a perna que dizia ter manca.

- “Ai, o que eu era! O que eu era! Sabia muito bem dançar, ia para os bailes, para as festas. E era bastante jeitosa!”, lembrou, a sorrir. “Agora ando assim da cabeça, com o tino perdido".
Fernanda envelheceu tudo na cara e muito pouco no cabelo, quase todo preto, arrumado para trás com uma bandolete.

- “Não tenho ninguém; sou sozinha. Não há ninguém a quem possa ligar”, garantiu-me. “Mas não estou nada perdida, sei bem onde estou. Vá com Deus que eu fico com Deus. Eu tenho passe”, afirmou, inabalável.

E tem: dentro do quadrado da fotografia está, de lábios vermelhos, a Fernanda de corpo jeitoso; a dos bailes; a de antes da muleta, da viuvez e da perda de tino. À volta disso está um passe social com a senha deste mês.

Seguimos até uma paragem de autocarro.

- “Nasci em Campolide. Tenho quase 89 anos. Tenho penado muito nesta vida! Mas sempre como uma mulher de bem. É perguntar a qualquer pessoa, toda a gente diz informações de bem sobre mim. Trabalhei muito, e não foi a matar ninguém: trabalhei nas obras, a dias... Fiz muito toda vida!”

Espreitei as horas e o horário do autocarro e voltei a fazer-lhe as perguntas do início, para garantir que conseguia chegar sozinha a casa.

- “Eu tenho muito boa família, bem empregados. Até tenho um primo que trabalha na televisão! Mas não tenho ninguém. Sou sozinha. E estou aqui perdida. Perdi o tino e não tenho quem me acuda. Moro na Praça...”

Falei-lhe em chamar a polícia. Teve medo, não quis. Tentei um táxi, mas ali os carros são para turistas com dinheiro, não são para velhos perdidos. Parei um condutor e fi-lo companheiro de missão: Mário.

- “Fernanda! Arranjámos um carro!” Fernanda tinha prometido ficar sentada perto da paragem, até que a solução aparecesse. E ficou. E fomos. Parecia uma menina:

- “Eu pago! Eu pago! Siga! Siga!” E dava ordens aos gritos, gesticulava, dava saltinhos no banco de trás. Achou que estava num táxi e eu não a contrariei. Lembrava-se perfeitamente do caminho. Chegámos.

- “Vais ver a minha casinha. Limpinha. É só um bocadinho. Vens lá comigo, ver a minha casinha!”, dizia, excitadíssima, a fazer-me festas na cara e a sorrir-me, numa imensa boca deserta, e a tirar do bolso as chaves de casa.

A porta do prédio não tem fechadura nem maçaneta: tem um buraco a fazer de uma e um arame a fazer de outra. No caminho até ao 4º C pode perceber-se que ficou muita coisa por acabar. Fernanda abriu a porta e mostrou-me tudo, quarto por quarto. Fotografias, casa de banho. Tudo, enquanto dizia: “Tenho ou não tenho uma linda casa?”

Aguentou-me ali tanto quanto pode. Antes de me deixar vir embora beijou-me e abraçou-me com muita força.

- “É de todo o coração, filha, de todo o coração!”

E abraços e beijos e abraços e mais beijos. De todo o coração. Adeus.

Voltei de boleia com Mário, meu companheiro de missão. Ele deixou-me onde eu o parei, mesmo antes das suas fotografias à ponte. E o Cristo alto, de cimento, estava exactamente onde ficou: de costas para Almada, sem ver os de lá nem acudir os de cá, mas de braços abertos, a segurar o céu.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

O vizinho do cão

Eu tenho um vizinho do cão. Antes era o vizinho dos gatos. E antes disso era de novo o vizinho do cão. Foi sempre o mesmo, o homem. Os bichos é que foram mundando.

“Anda, Nina!”
Calculo que o vizinho do cão se chame António ou José, e que é por isso – por ter uma graça corriqueira – que importa mais que seja do cão, dos gatos, ou do cão outra vez.

“Anda, Nina!”

É um homem de estatura média, com idade e careca de avô. Nunca deixou de usar os seus Ray-Ban verdes. É do sporting e tem um pé, que é como quem diz o corpo todo, a fugir para a curiosidade sobre as vidas alheias.

“Anda, Nina!”

O vizinho do cão leva várias vezes o bicho à rua. Não pelo passeio nem pelo chichi do animal, mas para poder cruzar-se com o maior número possível de vizinhos nas escadas. O vizinho do cão não gosta de me ver apressada, e tem sempre conselhos para me dar:

“Não se enerve, Joana, não ande à pressa, que isso mata a gente. Não vale a pena andar sempre a correr. A gente sai da cama e começa logo a sentir stress. Depois continua pelo dia afora, truca-truca-truca-truca, nunca mais pára. Vá para o Jumbo fazer umas caminhadas, relaxar. Ainda hoje lá estive!”

“Anda, Nina!”

O vizinho do cão tem uma mulher que condiz consigo vezes dois – por ser enorme, por ter o dobro do cabelo e por falar duas vezes mais alto do que ele (e do que a generalidade do mundo).

Tem também um neto tão feio quanto ruivo, de quem gosta muito – “Porque a gente acarinha sempre mais os que mais precisam, filha. Sendo menos bonito a gente tem que gostar mais”, explicou-me a minha avó.

E tem, irrefutavelmente, a causa do condomínio colada à pele. O vizinho do cão é a única pessoa em Portugal que gosta de administrar um condomínio. Mais: é a única pessoa que tem uns ténis especiais de corrida – no sentido da utilidade literal do objecto – para subir e descer as escadas do prédio e fazer as cobranças, convocar pessoalmente os condóminos para as reuniões, e aproveitar para fazer queixa de quem não paga.

A parte mais importante das coisas que o vizinho do cão tem é o bicho. E o bicho não é bem um cão, é a Nina.

“Anda, Nina!”

É gordíssima, amarela-ruça-de-velha, e tem microcefalia. Está surda, tem reumático e tem que subir a escada ao colo, porque, atesta o vizinho, “tem medo dos degraus”. A Nina não come o meu gato porque não o vê nem o cheira, mesmo quando ele se põe à frente do seu focinho, a provocá-la.

A Nina é uma cadela que já morreu mas que, por respeito ao vizinho do cão, continua a andar.
“Anda, Nina!”

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Brilho apertado

Abu Dhabi ainda não tem o brilho que merece uma capital. O Dubai, todo sorrisos e piscares de olhos ao Ocidente, ultrapassou-a pela direita, e fez-se num deslumbrante parque de diversões para adultos estrangeiros, bonitos e de bolsos cheios.

Na capital sabe bem o azul todo que é a Corniche, a estender-se, larga e comprida, pela costa: o seu chão desenhado mais o mar à esquerda, o céu por cima e o sol a deitar-se ali ao fundo. Têm graça as mulheres, tapadas até depois das pestanas, a andar ou a correr, calçadas com ténis do Ocidente em baixo disso tudo.

Em Abu Dhabi sabe bem a falta de arrumação à direita desta avenida: os prédios escuros, com pinturas estaladas e persianas partidas; os cheiros da vida de todos os dias; as pessoas de verdade, com as unhas encardidas do trabalho, e as roupas amarrotadas pelo aconchego que é dividir um quarto por cinco; as mercearias a cair de velhas; o homem da mercearia a fazer contas para pagar a mensalidade do empréstimo para a bicicleta; um afegão que não vi, mas que dizem que faz todos dias pão paquistanês, de cócoras, em cima de um forno: a vida crua, sem polimentos e poses para agradar.

Abu Dhabi quer seduzir o Mundo mas ainda não aprendeu a ser sexy: o que o outro sufoca com luxo, esta sufoca com apertos.

Por um euro fui a visitante número 172665 da praia de Abu Dhabi. Antes disso fui uma cabeça confusa até perceber em qual das praias devia entrar, tendo um homem de mão dada comigo. Os homens e as mulheres vão a praias separadas; a delas é privada e eles não entram a menos que venham em família. Para efeitos de arrumação balnear, percebemos então, um homem e uma mulher juntos são uma família.

Antes da areia branca e fina, e da água morna e transparente, é preciso garantir conformidade para com as regras do paraíso, sob pena de forçar as autoridades a «desencadear acções legais, de acordo com a lei contra os infractores».

Para não testar a eficiência das autoridades basta «não nadar nu; não pescar; não fazer fogo; ser decente e respeitar os direitos dos outros; não andar de bicicleta ou de skate nas zonas reservadas as peões; não jogar críquete; não montar tendas; não levar animais; não espalhar lixo pelo chão; tomar conta das suas crianças; não ouvir música alto; não consumir álcool , nem escrever nas paredes». E dá jeito ainda ter em mente que estas são as regras gerais, pelo que as há particulares também.

Por via das dúvidas é fazer como os autóctones: aguentar o calor embrulhado em roupas e molhar as canelas ao de leve, sem excessos ; e já agora, tomar precauções de turista: sacudir a areia dos pés e não se demorar tempo nenhum por ali.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

A feira da caça

Do fresco da noite que está hoje já se falou, por ser ele igual ao de uma noite passada, também em Omã. Fale-se, então, dos passos que faltam para entrarmos, garante Khalid, jovem e paciente cicerone, “no único sítio onde vale realmente a pena ir entre as horas que aconchegam a de jantar”.
[Fotografias: Vítor Martinho]
O Festival de Mascate acontece todos os anos entre Janeiro e Fevereiro e figura na lista dos mais famosos da capital. Chegam, arranjadas e perfumadas, pessoas de todo o país, prontas para «experimentar a verdadeira essência de Omã: as suas tradições, a sua cultura e modernidade, alcançada sem esmagar o traço do desenho da sociedade tradicional.»

O clima é de Feira Popular – pela diversão e pelo aperto da afluência, ávida de folia. Elas a concorrerem com os carroceis, transbordantes de brilho e maquilhagem; eles muito viris, com pose, barbas aparadas e desenhadas. Todos vestem roupas impecáveis e trazem os olhos muito abertos, atentos: hoje é dia de caça.

Vimos aqui porque é onde podemos ver miúdas”, explica Khalid, 22 anos, cabelos farto e escuro, encaracolado, e sardas no nariz. É estudante de Engenharia Informática na Universidade Sultão Qaboos, a maior do país.

Só comecei a falar com raparigas quando entrei para a Universidade”, continua. “Aliás, é a melhor coisa de tirar um curso superior: poder vê-las, estar com elas, ouvi-las, dizer-lhes coisas.”

São muito poucos os visitantes que não trazem os telemóveis na mão.
As mulheres nunca vão ter com um homem”, diz. “Nós é que vamos ter com elas. Levamos na mão um papel pequenino, dobrado, com o nosso número de telefone. Não falamos, só sorrimos. Se ela estiver interessada liga. Se não estiver, já se sabe...”

Não será preciso ser um génio do engate para se perceber que saem muitos papéis da mesma mão todas as noites: “Depende da qualidade do que andar por aí, claro, mas dou sempre o número a mais do que uma”, confessa.

A tecnologia ajuda no galanteio: os telemóveis deles e delas têm o bluetooth ligado e ele faz, várias vezes, a vez do papel.
Khalid deixou em casa o seu traje tradicional: a disdasha (túnica) e o kimah (chapéu redondo, com bordados). Veste-se como se diverte: à imagem de um universitário europeu, mas sem álcool.

Tenho amigos que bebem, mas isso é escolha de cada um. Eu não bebo. Fumo muito quando saio com os meus amigos: shisha, tabaco... Nem uso drogas. Tenho um amigo que foi apanhado a fumar droga e que vai cumprir 23 anos de prisão. Tem a minha idade.”

Khalid deve ter pouco mais de 1,70m. Tem formas redondas e um balanço extrovertido no corpo. Fala alto, entre gargalhadas, e percebe-se, pela frequência com que o seu telemóvel range e apita, que é sociável e muito popular.

É mais comedido quando fala em inglês. “A culpa é dos professores, que são todos indianos. Dizem wán em vez de one! Como é que conseguimos aprender a falar como deve ser?” Odeia indianos, assegura. E lamenta-se: “Tinha tanta coisa para vos dizer, mas com este inglês...!” E ri-se. E rimo-nos e agradecemos e lamentamos não entender árabe para conhecê-lo todo.

Vamos andando pela Feira e podíamos estar em Lisboa. Não há uma única nota de música árabe a sair das colunas enormes e potentes. As pessoas abanam-se – levemente, que é proibido dançar em público – ao som de música brasileira e latino-americana.

Percebe-se que a miúda que passou era gira pela cara de Khalid, que se contrai num sinal afirmativo, e pelos barulhos que faz com a boca, entre estalidos e suspiros.

“Se ela responder vamos falando por sms e ao telefone durante um mês ou dois. Se a coisa for séria encontramo-nos depois disso para começar a namorar.”

Na rua não há beijos. Beija-se em casa ou no carro que, para efeitos pudicos e legais, é mais casa do que rua.

O sexo antes do casamento é como o álcool, cada um sabe de si. A maioria não o faz. E casamos quando temos dinheiro. Precisamos de ter bastante dinheiro.”

Voltamos ao carro depois do espectáculo de pirotecnia e eu não contenho a curiosidade sobre o F. de prata, pendurado num fio que baloiça no retrovisor, ao ritmo da condução desastrosa de Khalid.

Era da Fátima. Foi minha namorada até ter chegado um melhor partido, com mais dinheiro. E partiu-me o coração”, e aperta o F. com a mão direita, sentido. “Mas não quero falar sobre isso”, remata.

A música, a que ele sobe o volume para fazer parágrafo na conversa, em árabe, canta um amor perdido, que foi embora, ninguém sabe para onde.

Khalid lê mais uma mensagem no telemóvel e vira o retrovisor para nos ver melhor. Sorri. Tem um ar gingão e confiante. Volta a olhar para a estrada, satisfeito. Talvez fosse a miúda de há pouco. E se não resultar com esta, amanhã há feira outra vez.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Xavier, com S.

Diz que sim como os da sua terra: faz pender a cabeça para a direita e para a esquerda, com as orelhas no sentido do ombros. Direita-esquerda-direita-esquerda e um sorriso largo continuado. Por cima disso um bigode intermitente: ora crescido, ora cortado.
- “Uns amigos preferem de uma maneira, outros de outra. Faço a vontade a todos”, diz, num riso nervoso.
Chama-se Xavier, pronunciado com S., mas na placa dourada, posta na camisola verde da farda, só se lê Xavier.

Nasceu em Bombaím, Índia, e a sua pele tem a cor da sua terra, onde deixou os pais, à procura de uma mulher para casar com os seus olhos escuros e com as suas gargalhadas permanentes.

- “Vim para o Dubai para poder juntar algum dinheiro. Quero casar. É isso que mais quero: casar e ter uma família”, diz-me, a encolher os ombros e a virar o rosto, de vergonha.

Xavier, com S., é licenciado em Ciências Farmacêuticas e chama-me “M’am”, de senhora, com S. maiúsculo. É assim que tem que ser: eu sou cliente de um hotel tão luxuoso que me tira o ar (a minha casa-de-banho é do tamanho da sua casa) e ele vem para fazer limpezas.

- “Ganho muito bem, adoro estar aqui. A minha casa fica só a uma hora de autocarro. Divido o quarto com três amigos, é muito bom. O hotel paga-me o quarto, o transporte e a comida.”

Ganha o dobro do que ganharia na Índia, a trabalhar como farmacêutico, se tivesse a sorte de conseguir um emprego: 280 euros. Trabalha oito horas por dia e tem quatro folgas por mês. Vai sair daqui “um bom partido” e “confia no gosto dos pais para lhe escolherem a mulher”.

- “Vai ser linda. E cristã, como eu”. E um olhar brilhante, como quem já lhe vê a cara.

Xavier tem a pele das mãos seca, e uma unha da mão direita partida. Gosta de música. Acha o fado triste mas já sabe dizer saudade; tem-na escrita num papel que traz no bolso.

Demora até aceitar um chá, um pedaço de bolo ou uma bolacha. Que “obrigada-mas-já-comi-e-comi-muito-bem-a-comida-é-óptima-mas-obrigada-Senhora”. E outras gargalhadinhas nervosas, de falta de hábito.

- “Os hóspedes deste hotel são muito ricos e normalmente mal educados. Olham pouco para nós e conversam connosco muito raramente. Mas não faz mal, eu também não quero conversar com eles.”

Depois de casar, em Junho, vai "ficar dois meses na Índia, com a mulher, e depois volta. E vai, e volta, e vai e volta, para ter uma boa vida.”

Enquanto não casa, é a minha companhia de antes do almoço, e mais uma no meu coração.

- “Limpo os outros quartos a correr para vir conversar contigo”, sorri-me. E eu levanto-me mais cedo para conversar com ele, sorrio-lhe de volta.

Descobri, entre as tralhas que o Vítor nunca consegue deitar fora, um leitor de mp3. Ofereci-o ao Xavier, entupido de fado. Ele adorou. Agora tem onde ouvir Portugal até o decorar, e já não precisa de trazer a saudade, com S., escrita num papel.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Mercado do Peixe


segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Nasser, o taxista da família e do coração

Estamos a meio caminho entre Mascate e Seeb, na Grande Mesquita Sultão Qaboos, o homem que manda em Omã e que é “bom, tolerante e visionário”, dizem várias vozes pelos cafés.
O sol nasceu há pouco tempo mas já não é difícil transpirar. No jardim da Mesquita, o trabalho começou muito antes de chegarmos. Em direcção a nós vem um jardineiro indiano incontornável, orgulhosamente “encarregue de tudo o que se vê ali plantado”, e pronto para fotografar estrangeiros, mesmo aqueles que não querem ser fotografados. “É ali que costumam ficar para eu lhes tirar fotografias”, indica – ordena – com a mão, para logo depois fazer o gosto ao dedo.
Dois passos à frente, uma cara familiar.
- “Estão atrasados, menina.”
Nasser fala como anda: com muita calma. Sorri sempre. É um homem baixo, de pele morena e, hoje, barba de um dia. Tem, entre os olhos escuros, um nariz grande e redondo, que está também na cara do mais novo dos seus nove filhos, que fotografou com o telemóvel.
Acordámos uma viagem até Nizwa, a 80 quilómetros de Mascate, uma paragem no mercado e outra no único forte onde é possível entrar. O regresso, prometeu, seria a tempo do segundo autocarro da capital para o Dubai.
- “Ainda não entraram na sala principal?”
Descalçou as sandálias e seguiu-nos.
A Grande Mesquita de Omã “tem 40 mil metros quadrados e espaço para 20 000 fiéis. Foi construída com materiais sírios, egípcios, turcos e iranianos. O Sultão inaugurou-a em 2004”, explica Nasser.
A principal sala de oração é senhora de largos ornamentos: no chão tem 4 200 metros quadrados de carpete persa feita à mão – dentro da Mesquita, sem cortes – e que pesa 21 toneladas; no tecto, de cúpulas altas, há traços dos fortes que os portugueses contruíram em Omã, e luxo pendurado nos imensos candeeiros de cristal e ouro.
Seguimos viagem. Mascate embala o caminho para Nizwa: as montanhas tocam as núvens e enquadram a vista em tons de castanho e cinzento; as palmeiras aconchegam as casas árabes, bonitas e arranjadas.
Chegamos em meia hora.
O mercado da cidade começa antes da entrada: há artesãos sentados debaixo de chapéus de sol, com as plantas dos pés juntas, a apertar couro, e as mãos às voltas com corda e agulhas, para fazer sapatos. É fácil falar com as pessoas mas difícil fotografá-las, que-não-querem-que-não-que-não.

Depois disso também há poucas pessoas com menos de 60 anos. Há artesanato, peixe, carne, frutas e legumes, tecidos, roupas...

Nasser conduz-nos pela vida das ruas e pela de casa.

- “Tenho nove filhos. Somos 13; os meus pais vivem connosco. Em Omã não é difícil ter muitos filhos: o Governo paga integralmente a saúde e a educação, mesmo o ensino superior. Só precisamos de pagar a comida. Tenho uma pequena quinta e dois empregos: trabalho para o Estado e tenho este táxi”, conta.

Cumprimenta vários homens pelo caminho. Repete-se sempre o mesmo ritual: os dois, frente a frente, disparam perguntas em catadupa, num pingue-pongue de palavras que parece ensaiado e que é tanto mais longo quanto a estima que têm um pelo outro.

- “A sua mulher?”
[Fotografia de Vítor Martinho]

- “Bem, a sua?”
- “Bem, o seu filho?”
- “Está bem, o seu?”
(E mais, e mais..)
Almoçamos numa sala quadrada, forrada de carpetes persas, com almofadas ao canto, no chão e na parede, para as costas. Estamos descalços e de mangas arregaçadas. Chegam à mesa, que é a maior carpete no chão, forrada com um plástico fino, seis pratos de diferentes tamanhos, de onde comemos todos: arroz; salmão grelhado; salada de alface e tomate, temperada com limão; atum em molho de vinage e cebola.
- “Não usamos talheres. Comemos com a mão e todos de um prato grande, sempre com a mão direita. Para os muçulmanos, a esquerda é a mão suja; é com ela que nos lavamos. Toda a família come das travessas: imaginam o trabalho de lavar 13 pratos, mais travessas e panelas todos os dias?”, abana a cabeça aliviado, com a mão direita besuntada de arroz como estava, de resto, - e muito por culpa da minha habilidade, confesso - todo o plástico que cobria a carpete.
Saímos redondos de cheios do restaurante. São horas de voltar. A paisagem é a mesma mas no sentido inverso e mais bonita, por estarmos de partida. O terminal de autocarros é feio, como é feio dizer adeus. A cara de Nasser já tem saudades e a nossa também.
- “Queria poder não aceitar o vosso dinheiro. Passei um dia maravilhoso.”
Apertámos as mãos, abraçámo-nos e beijámo-nos. Voltámos com um nó na garganta.
A nossa história mantém-se em todos os capítulos de todas as nossas viagens. As histórias daqueles com quem nos cruzamos mudam sempre. E acrescentam-nos tanto que é impossível viver sem estar sempre com pressa de nos demorarmos em todas as pessoas do mundo que ainda temos por ver.

domingo, fevereiro 08, 2009

Omã no bolso

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

O homem que há-de mudar o mundo

Passava da meia noite. O vento arrefecia-nos a cara queimada pelo verão que é o inverno na praia Qurum, em Mascate, capital de Omã. Tudo transpira história e percebe-se muitas vezes Portugal, que andou por aqui entre 1507 e 1650, e que, mesmo depois de ter sido mandado embora pelos Otomanos, se deixou ficar.
Ficou nos fortes plantados nas montanhas, pontuadas de verde, recortadas e encaixadas no céu; nos canhões com o brasão da coroa, à porta de inúmeros edifícios; na marginal que contorna a parte velha da cidade e o seu mercado vivo de gentes e de cores; nos museus fechados porque é hora de almoço; e ficou, sobretudo, no olhar de todos os que aqui vivem, sempre de braços abertos.
A bandeira de Omã é branca, pela paz, verde pela natureza de todas as esquinas, e vermelha pelo sangue que se derramou no caminho longo até à independência.
Voltamos à noite. Está fresca, já se disse. Na rua – onde o trânsito não faz prever a hora que, com a espera, avançou – há um multibanco teimoso e dois viajantes com o quarto por pagar.
- “Precisam de ajuda?”
A voz sai, num inglês torcido, de uma boca Omã, onde também está um cigarro. O homem tem vestida uma túnica – que em rigor se chama dishdasha – castanha. Na cabeça um lenço claro, enrolado, e nos pés – que são como os de todos os homens daqui, enormes, gordos e redondos – umas chinelas encardidas, de couro.
Ali Ahmed Al Kafiri arruma o dinheiro que levantou na carteira e sorri, agora com o cigarro na mão.
- “Vou deixar a minha família em casa. Em dez minutos volto e levo-vos a outro multibanco. Havemos de encontrar um que aceite os vossos cartões.”

Dez minutos de vento na cara, e Ali a parar o carro. A boleia não atrapalha, precisava de chá e de açúcar para a viagem do dia seguinte, para casa: mais de mil quilómetros até Salalah, a sul, virada para o Índico.
- “Não me interessa a vossa cara, a vossa cor, o vosso sangue. Ajudo-vos porque sei que quando for eu a precisar alguém vai ajudar-me com a mesma vontade. Somos todos humanos.” Conduz com calma e empurra as palavras com gestos firmes das mãos escuras.
Trabalha no Ministério da Herança e da Cultura e, como nós, percebe mal o que se lê nos olhos da maioria dos árabes dos Emirados.

- “Não abrem a boca. Até hoje não consegui perceber o que têm dentro deles. Não querem saber das pessoas. É perfume e nariz para cima”, brinca. “Mas sinto afecto por eles. Vocês não? O Islão ensina-nos a gostar de toda a gente; a amar todas as pessoas e todas as coisas da natureza. Eu gosto dos portugueses. A guerra é história; não há nada para odiar”, acrescenta.

Sente que é possível que os nossos antepassados tenham sido árabes. E sente que todos os que passam pelo mundo o fazem na condição de iguais, “porque todos nasceram a amar a sua mãe”.

- “O meu pai e o meu avô viveram em grutas, entre o deserto e o mar. Foi aí que nasci. Cresci com a minha família, com vizinhos e com viajantes. Houve sempre muita gente a viver connosco. Chegavam e ficavam sempre por algum tempo. Se viessem em paz ficavam e eram sempre bem-vindos. Dormiam a um palmo de nós.”

Estaciona o carro em frente a um hipermercado. Encaminha-nos para um corredor onde há quatro caixas multibanco. Segue para o chá e para o açúcar. E volta.

- “Deixo-vos onde vos encontrei?”

- “Não vamos atrapalhar?”

- “Claro que não atrapalham. Ficam-me a caminho de casa.”

Voltamos ao carro. No regresso passamos pela bondade nos olhos dos homens, pelas religiões, pelo seu Islão e pela vida. Ali pára de novo o carro perto do multibanco teimoso, mas a viagem continua por muitos mais minutos, nas palavras.

Trouxe-nos porque lhe ficávamos em caminho. Se não ficássemos, tenho a certeza de que nos traria na mesma.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Mãos de obra

domingo, fevereiro 01, 2009

Pena suspensa pela saia

“Estou inocente... Estava vestido de mulher porque estava a treinar para um papel que vou desempenhar num filme, na Índia. Não tinha intenção de ir para o centro comercial assim vestido, mas recebi uma chamada urgente e tive que sair”, suspira, P.K., um indiano de 45 anos. Está sentado no banco dos réus, no tribunal do Dubai.


Era gerente de uma loja do Mall of the Emirates, ia sendo estrela de um filme de Bolywood, e, ainda antes disso, presidiário.


Um polícia à paisana apanhou-o vestido de mulher: “A roupa era muito brilhante, ele tinha soutien, maquilhagem, uma peruca e perfume de mulher”, conta o agente.


Pelo horrendo delito, P.K. foi condenado a seis meses de pena suspensa e a 10 000 Dirames (2 000 Euros) de multa.


Compassivo, o juiz, confiante na reabilitação do criminoso iniciado – “Estou convencido de que ele não repetirá o crime” – deixou a pena suspensa por três anos, durante os quais o arguido não poderá repetir a maléfica proeza.


Não sei quem é P.K. nem de que cor era o seu vestido. Apanhei-o no jornal de domingo, na liberdade da imprensa para servir a ditadura.


- “É um homem cheio de sorte”, sorri um árabe, sentado na mesa ao lado, com o canto do olho posto no meu jornal, igual ao seu. “Sou saudita, já vi enforcados por muito menos.”

sábado, janeiro 31, 2009

O deserto ao fundo da rua


Esta estória, que queria acabar no deserto, começa dentro de um jipe onde está um paquistanês – com as mãos no volante –, uma argentina e um espanhol – com as mãos um no outro –, uma queniana, dois portugueses, um chinês acordado e outro sempre a dormir.
O homem com o volante nas mãos vai descontraído, a manter o estilo que condiz com a capa da caixa de lenços de papel que traz no tablier, cheia de dourados. À esquerda, junto à janela, traz um peluche, para mostrar às miúdas que é um tipo sensível. A cereja do bolo do carácter vem pendurada no retrovisor, onde um sino de plástico, atulhado de pingarelhos, compõe o ramalhete.
A argentina e o espanhol olham-se com um ar tolo de lua-de-mel, e filmam-se, de boca aberta, pasmados com a maravilha-de-fresco que vêem, até ver, um no outro. O chinês acordado, que se senta, vestido de verde, no banco de trás, fala pelo que vai à frente a dormir, no lugar do co-piloto, e pela queniana, que se veste a condizer com ele.
O deserto começa a chegar aos poucos, pelos lados. O chinês acordado tenta dizer zorro em inglês. Tenta de novo. E volta a tentar. Desiste.
É tempo de calibrar os pneus para fazer o carro trepar pelas imensas dunas de areia. O deserto aparece logo depois da curva e, vendo bem a coisa, não é tão deserto assim: há famílias em piqueniques e várias caravanas de safaris. Por sorte, sobra uma duna ou outra.
A música sobe para se sentir melhor a coisa. O rádio apanha quase sempre: este deserto, é uma sorte, fica mesmo ao fundo da rua.
O jipe faz-se às dunas. Começa a saltar, a gingar, e a fugir. As ondas de areia chegam às janelas. Ouvem-se, e percebem-se só pelo tom, asneiras em todas as línguas.
O jipe cai quase de frente, quase rebola, de tão encostado à direita, e tudo grita. O chinês que dormia já acordou e o outro, com o susto, disse zorro melhor do que o espanhol.
O sol vai descendo e é preciso parar para o ver por-se gigante-laranja, enorme-enorme, lá ao fundo, depois das famílias e onde acaba a areia clara e fina.
Com os minutos contados, os guias apressam os turistas para o jantar. Mais dunas, gritos e asneiras até ao acampamento.
A tomar conta da entrada há três camelos ramelosos, cansados e fedorentos à disposição do rabo de qualquer turista, excepto do da senhora redonda que está agora a rebolar-se no chão, ao lado do camelo que não estava para ser urso.
shisha, chá, café, tralhas de levar para casa com ícones do Dubai, indianas a pintar as mãos das meninas, espaço para as máscaras e, logo depois das filas de uma hora, o jantar. O ambiente é animado. Há turistas bêbedos e outros só parvos. Há paquistaneses e indianos com um ar cansado e há o grande espectáculo da noite, quase-quase a rebentar, anunciado pelo rugir insuportável de várias colunas.
A dança do ventre chega ao palco no corpo de uma bailarina de Alhos Verdos ou de Oliveira de Azemeis, que é máscula e praticamente sexy. Tem franja, cabelo comprido e corpo que sobra ao vestido. Com o ritmo tosco que tem no corpo, a odalisca-pinguim vai animando as hostes e convida o público ao palco, para o delírio. A delirar ainda está uma sexagenária francesa, de cabelo curto encaracolado e olhos arregalados. Dança para manter a postura e não pede ajuda; para todos os efeitos está a divertir-se e não está perdida; só já não se lembra em que curva do palco redondo entrou.

Cá fora há palmas entre os restos do jantar, fotografias e a dança dos que têm vergonha das luzes. A música já é só uma chinfrineira disforme.
Chega, com a sobremesa de sopas de pão com mel, um fulano num traje risível, que depois se faz todo luz e dança com um espécie de fatia de pizza gigante por cima da sua cabeça. É psicadélico e quase tradicional.
A multidão não sossega, gosta e pede mais. As colunas a rugir. Mais café e chá. E palmas, e palmas, e vivas e, sem se dar por isso, os guias a empurrarem toda a gente para os carros, que-acabou-a-festa-acabou-a-festa-foi-giro-não-foi?.
No caminho de volta, o chinês do banco da frente dorme como um bebé e o do banco de trás não voltou a conseguir dizer zorro. Arrisco que todos pensam em como foi bom rir até sentir a barriga doer.


Afinal, fomos ao circo. Foi fantástico, mas fiquei com pena pelo deserto; ficava mesmo ali ao fundo da rua...

sexta-feira, janeiro 30, 2009

A Grande Mesquita

É ténue a linha do desenho que se percebe no horizonte, mas indubitável a força da presença com que se assoma. O branco imenso da sua extensão esbate-se na luz fria e nublada do meio da manhã. [Fotografia inicial: Vítor Martinho]

A paz da pintura quebra-se com a proximidade. Como em toda a curva do golfo pérsico, as obras ainda não terminaram: há barulho, muitos trabalhadores, tijolos, cimento e apetrechos mil. E há ainda, não sei hoje, se sempre, hordas de turistas a transpirar cuiosidade e histeria.

A mesquita Zayed Bin Sultan Al Nahyan – ou, pela impronunciabilidade da sua graça, Grande Mesquita – é o mais imponente edifício religioso da história de Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos (EAU), e uma das poucas abertas a não-muçulmanos.

Os turistas vingam-se e levam-na toda nos cartões de memória. Não há azulejo que não fique no retrato. E merece; posso arriscar que até se faz à fotografia. A Grande Mesquita é vaidosa. Porque é árabe e porque pode. Fez-se – de mármore, ouro, pedras semi-preciosas e cristais – com pedaços do mundo todo – de Itália à Índia, passando por Marrocos, Grécia, Alemanha, China e EAU.
Cabem aqui, ao todo, dizem eles, 40 960 fiéis.

- “ Não há mais chadors – os trajes pretos que cobrem o corpo da maioria das mulheres muçulmanas – nem hijabs – os lenços que cobrem as suas cabeças – lavados. Usaram todos!”
A voz atordoada é de uma filipina a quem delegaram a gestão da banca circular que fornece a roupa que os visitantes – sobretudo as mulheres – têm usar no interior da mesquita.

- “Agora só usados”, acrescenta, enquanto encolhe os ombros e desvia o olhar para um saco de plástico transprente, de onde caem peças negras do avesso, com o uso de quem vai espreitar os dois salões – fotografá-los até ter cãibras nos dedos – e volta.
- “Venham os usados, então!”, guincham duas chinesas. Vale tudo menos deixar alguma coisa por ver.

São centenas a entrar e a sair. Dezenas a parar no meio, para as fotografias. Milhares por dia, a brincar ao carnaval.

Paquistaneses e indianos estão arrumados como de costume: uns garantem a alvura e o brilho espelhado do chão, outros a segurança e o respeito (possível) pela santidade do local.

Na visita, eles vão mais ou menos à larga – “pede-se apenas que não vistam calções” –; elas vão todas embrulhadas.

Os sapatos ficam na linha do corredor que conduz à entrada. O cheiro que sobra – e que sobra, e que sobra – fica na maior carpete persa feita à mão (7 000 metros quadrados), que cobre todo o chão da segunda sala, onde – e já que se põe as letras nas grandezas – está pendurado o maior candeeiro do mundo.

Os visitantes atropelam-se, perguntam, gritam, e voltam a fotografar.

Cinquenta passos atrás da carpete que ainda fede daqui, está o frio da primeira sala, que só recua perto dos vitrais enormes e difíceis de dizer. O espaço faz sorrir por isso, e pela doçura das flores que crescem nas paredes de mármore.

Mais fotografias, poses, fotografias e poses, gritos, perguntas e atropelamentos. Todos fazem tanto para levar tudo que duvido que cheguem a ter tempo para ver alguma coisa.

Entre a multidão deambulante há guias que se distinguem pelas placas que agitam, em bicos de pés, de braços levantados.

- “A hora das orações está relacionada com os movimentos do sol”, explica, num francês amarrotado, uma guia tão anafada quanto coberta. “O calendário muçulmano é diferente do cristão. Contamos o tempo partindo do dia do Profeta. Estamos, por isso, no ano 1430.”

Os guias orientam os rebanhos e dão por findadas as visitas. Depois do meio dia a mesquita é só para quem vem fazer as suas orações.

As últimas poses, as últimas fotos, os últimos gritos de entusiasmo, e a roupa vestida de segundo uso posta fora dos corpos, do avesso. A debandada faz-se ao ritmo do burburinho – burburão, ão – a que as impressões se trocam. Já está.

Pelos vistos, Alá – o Deus dos “fanáticos-extremistas-intolerantes-e-todos-postos-no-mesmo-bolo-e-preconceitos-e-preconceitos...”– é um tipo calmo, que lida bem com a bandalheira. Gostava de ver o que faria a Nossa Senhora – “que é virgem e faz milagres” – com este circo de infiéis montado em Fátima.

[Curiosidade: Muslim Prayer Times]

quinta-feira, janeiro 29, 2009

O Dubai pelas suas caras

Amor vingado

O Creek Side Park diz-se todo pelo nome. É um parque que se estende ao lado do Creek. É preciso acrescentar que o rio – o Creek – lava o Dubai, aqui e ali, e que, à noite, quando se espreita o lençol da cidade velha, as luzes dão-lhe uns ares da cidade do meu coração.

O parque é imenso, verde, arrumado e impecavelmente limpo pelos feios de que já falámos. É um parque temático dentro de um maior que ele, que é o Dubai.

Apetece namorar o Creek Side Park e por ele adentro.

Com o sol pela costas e no fim de uma curva, aproxima-se um árabe a quem não quis perguntar o nome. Conduz um carro que arrumo melhor num campo de golfe, e traz com ele um semblante cerrado.

- Acabaram-se os beijos. Isto é um sítio público!”, apontou o dedo. E seguiu.

Foi a segunda repreensão desta ditadura. Fiquei com o lábio a tremer. Uma rua onde o amor não se pode passear entre uma boca e outra não precisa de existir.

Por ser imenso, o parque tem ainda um teleférico quase barato. Diz que é para ele que o sol se põe, gingão e vaidoso.

Comprámos dois bilhetes. Pela liberdade, pelo amor, e pelo sabor infantil e irresistível de contrariar aquelas sobrancelhas cerradas. Subimos e beijámo-nos como se fosse certo que o sol não ia nascer outra vez.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Em casa no mundo

No chão de terra batida, um garoto de ano e meio faz uma birra demorada, numa luta hercúlea por uma girafa insuflável.
O pai, figura alta e redonda, a quem a energia foi fugindo com a idade, observa-o, impávido.
Ele esperneia, levanta pó e grita. Faizal olha-me e sorri, como quem se desculpa pela barulheira.

- “Deixo-o sempre cansar-se”, diz-me. “Queres um café?”
E fomos.
- “És turista? Eu vivo aqui desde sempre. Era produtor de programas de televisão mas reformei-me. Tenho nove filhos daquela mulher que está ali ao fundo.”

- “E tem outras mulheres?”

- “Não falo sobre essas coisas!”, diz-me com uma gargalhada tapada pela mão a esconder a cara, envergonhada.
A mulher sentada lá ao fundo tem 50 anos, a pele morena e os olhos rasgados. Os seus pais chamaram-lhe Emerine.
Quando veio das Filipinas para o Dubai, converteu-se ao islão para se casar com Faizal e agora chama-se Miriam. Apesar do corpo tapado, é expansiva e tem a boca de ouro sempre aberta, ou a rir ou a falar.
Mexe as mãos com muita pressa.
Conversa comigo enquanto toma conta da família.

- “Rashid, agarra o miúdo!”
O pequeno Hajer não sossega por um instante. E cada brincadeira é mais arrojada do que a anterior. Preparava-se agora para saltar de uma altura que triplicava a sua.

- “Cada cinco minutos sem nada partido são uma conquista”, diz a mãe.

Metade da família veio ver Rashid, de sete anos, actuar. Vai participar numa coreografia de grupo, em que rapazes, vestidos com roupas tradicionais, dançam com kalashnikovs de plástico. Nos dias normais, Rashid passa o tempo a treinar para ser futebolista.

Hajer, o miúdo com pilhas, começou agora a comer terra.

- “Noorah, corre!”, grita Mariana, coordenadora de operações.
Noorah tem 11 anos e tanta timidez que, depois de entregar o miúdo peganhento à mãe, não me conta absolutamente mais nada para além da sua idade. Esconde-se atrás de Fatima, a mais velha deste casamento de Faizal. Tem 24 anos, olhos enormes, e estuda enfermagem.

- “Estou no último ano da faculdade e a arquitectar a minha independência”, pisca-me o olho.

Mariana tem Hajer ao colo e abana-o para o distrair.

- “Odeia estar quieto, mas deixa-nos exaustos. Às vezes tem que ser.”

Volto à Fatima.

- “O que te falta para seres independente? É o teu pai que te prende, a tua religião, os teus amigos, o teu namorado...?”

- “Preciso de terminar o curso e de ir estudar para outro sítio. Nunca viajei. Sou hiper-protegida. Prende-me a preocupação dos meus pais. Mais a da minha mãe, até. Sabes como são as mães... Os meus amigos usam a Internet, estamos sempre perto. E em relação ao Islão, é só um compromisso, não é uma prisão: as suas regras protegem-me, não me limitam. Tenho um véu mas tenho o mundo pela frente.”

Mariana dá ordem a Faizal para que distribua a comida pelas tropas. Enquanto desembrulham os hamburgueres, o miúdo decide assoar-se ao lenço da mãe. Ela larga-o no chão.

- “Noorah, toma conta dele”, delega.

Pede-me os meus contactos em Portugal, porque “nunca se sabe que voltas a vida dá”. Explica-me depois que a hora de orações está a aproximar-se e que têm que ir andando.

- “Foi um prazer ter-te connosco aqui.”

Faizal aproxima-se.

- “Se quiseres ir a nossa casa, terás uma festa à tua espera”, promete.

Despeço-me e agradeço.
Foi bom sentir-me em casa. É bom saber que o mundo me serve para morar, porque está cheio de famílias (quase) como a minha.

sábado, janeiro 24, 2009

O Corão no táxi

Fui a última a entrar no táxi. Ia zonza, enjoada. A shisha tinha-me descido às pernas e voltado à cabeça, para a deixar à roda.

A flutuar nas ideias tinha ainda o luxo disfarçado de tradição do Madinat Jumeirah, um resort que se vende como o mais fascinante do mundo e, pelos brilhos que vi, não deve andar longe da verdade. Ao fundo, noutra ideia nublada, a imponência do Burj Al Arab. 321 metros de altura com o desenho de um barco e o mundo lá dentro.

A porta do táxi bateu como quem diz que o dia estava a terminar. A noite estava quase tão fria como a de Lisboa. Ao volante estava um corpulento, de cabelo farto e grisalho. Tinha uma educação a fugir à regra da falta dela, que se pratica por aqui.

- “Podia ser português. Parece mesmo português. “

- “Sou do Paquistão, senhora.”

Quis saber de política. Ele explicou que é tudo religião.

- “Sou da Liga Muçulmana, embora reconheça o que o Partido Popular do Paquistão fez pelo país. ”
- “Mas não gostava da Benazir Bhutto?”

- “Era uma grande mulher. Filha de um grande homem, também. Chorei muito quando os mataram. Ela era boa mas não podia ser líder. É mulher. Respeito-a como irmã mas não a aceito como líder. Não pode comandar uma nação; o seu lugar é em casa, entre paredes.”

Falava sem tirar os olhos da estrada desarrumada. Percebia-lhe, de perfil, uma cara de traços grossos, como a voz, convicta.

- “Na sua autobiografia, a Benazir cita o profeta Maomé para dizer que "o Paraíso fica debaixo dos pés das nossas mães”, arrisquei.

- “Sim, mas o Corão também diz que "o Paraíso de uma mulher é debaixo dos pés do seu marido”, rematou, intransigente.

E mergulhou – e mergulhou-nos – em episódios do livro sagrado para nos mostrar que só aquele que ama o seu Deus mais do que a si se pode salvar; e que é preciso que cada um cumpra o papel que Deus lhe atribuiu; e que, por isso, cada um no seu canto. E mais, e mais.

Ele abranda à chegada para poder terminar o sermão. Pagamos-lhe mais pelo bom bocado de conversa: não entramos nas mesquitas mas elas vão entrando em nós.

"Moralidade, ordem, segurança e respeito ao Islão"

No Dubai, o Mundo está todo dentro dos hotéis, não vale a pena procurar nada à volta. Goze o corpo com o dinheiro, que a cabeça gozará com o Corão, nunca com a Internet.
Lista dos temas "bloqueados" - que censurados é capaz de ser forte.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Vestir as calças

O Gold Souk é um dos maiores mercados de ouro a retalho do mundo, e eu cheguei na hora de ponta. Tudo transpira pressa.
Passa das sete da tarde e o que era um burburinho deu uma cambalhota e é uma gritaria. O som confirma que é um mercado. Os brilhos confundem a cabeça. O mercado é das vendedoras feias, gordas, aos gritos, e das bagatelas. Não é das senhoras finas, de sacos de compras, não é das lojas a transbordar de ouro.
Há bebidas em tabuleiros, ao colo de vendedores ambulantes, e há homens que correm – ora atrás, ora à frente – de carrinhos de mão: cheios para um lado, vazios para o outro.

Os turistas arrastam-se, com sacos nas mãos, exaustos. E o mercado continua a corrida.
Os árabes vão passando, sempre com um nariz tão inclinado que os olhos, pobrezinhos, nunca conseguem baixar a linha do ombro, e precisam de olhar o mundo de cima, e sempre pelo canto do olho.
Parei os olhos nos olhos que espreitavam de um imenso e imponente tecido preto.

Umas mãos preguiçosas, como o andar em que a vi chegar, nuns chinelos muito sujos, e sentar-se. Na ponta das mãos, que seguram num telemóvel peganhento, a pintura das unhas a perder a cor.
Shaheen Noori é indiana. Nasceu em Bombaim e mudou-se para o Dubai com o marido há oito anos, quando casou. É muçulmana.

Tem 28 anos e duas garotas encardidas e fedorentas.

Com atenção, percebo-lhe o desenho do nariz pequeno, e, porque o vento ajuda, arrisco que tem uma boca conforme e lábios finos.

A curiosidade dos seus olhos prende-se na dos meus.
- “Não usas véu?”
- “Não sou muçulmana”, sorrio.
- “Cristã? Nenhum tipo de religião? Se não consegues decidir-te por nenhuma eu posso ajudar. A religião islâmica é a melhor do mundo. A melhor de todas, a melhor!”

Pedi-lhe razões. Queria ouvi-la desabafar.

Queria que acabasse por me confessar o quão oprimida se sentia; queria ouvi-la lançar pragas ao marido, a quem tem que obedecer; queria que se lamentasse pelo calor que aquele trapo preto interminável lhe faz; o aborrecimento das rezas; as outras mulheres do marido... Queria salvá-la daquele véu e ajudá-la a queimá-lo e a mostrar a cara ao mundo. Eu ia ser essa!

- “A minha roupa é extremamente confortável e versátil: estou bem quando está frio e também estou bem quando está calor. E é uma protecção contra os olhares invasivos dos homens. Tu és mulher, sabes como são insuportáveis...”
Respondeu-me sempre entre gargalhadas, desembaraçada, convicta, senhora de si.
A esconder o sofrimento, pobre-miúda-grande-mulher.

- “E o teu marido, como é para ti?”
- “Perfeito. Eu nem trabalho. Estou em casa. A maioria dos dias tenho quem tome conta das crianças.”
Ela vai acabar por ceder. Vai desabafar comigo, a pobre. E insisti, movida por um heróico espírito de missão.

- “Ele tem mais mulheres?”
- “Mais três. Temos muita sorte. A religião islâmica protege as mulheres; os homens são sempre mais pequenos.”

- “Não estou a perceber. Parece-me muito injusto. Tu toda tapada, só com um marido, e ele a transbordar liberdade, podendo escolher com que mulher vai dormir?”

Senti-a sorrir-me divertidamente por detrás do véu.

- “Tu nunca sentiste vontade de que o teu marido te desse uma folga? Assim está repartido. Vendo bem as coisas, é um descanso. E depois, pensa comigo: numa casa com um homem e quatro – com as pequenas, seis – mulheres, quem manda, efectivamente?”

E o telemóvel tocou. Despediu-se à pressa, enquanto punha ao ombro uma mala preta, brilhante.

- “O meu marido está à minha espera”.

Levantou-se, despida da preguiça com que chegara, e encontrou-se com o dito três lojas à direita daquele banco. Ouvi-a murmurar qualquer coisa enquanto empurrava as duas miúdas na sua direcção. Fez-se outra, altiva e sensual, e entrou na joalharia imediatamente a seguir, pronta para comprar o mundo.

Eu arrumei o bloco e vi as horas. Levantei-me e pus-me a caminho da paragem de autocarro. E fui para casa, fazer jantar para quatro.




sábado, janeiro 17, 2009

A herança posta ao canto

O Dubai não quis assomar-se aos olhos dos que vêm de fora para se afogarem em luxo para lhes mostrar um pedaço de terra fútil. Agarrou nas velharias – a história e a cultura, coisas decrépitas-decrépitas – e juntou tudo numa aldeia fingida, mas com pessoas reais.

A ideia é só dar uma ideia, que as estravagâncias ficaram todas presas nas pontas do céu. A Heritage Village fica a 5 Km do centro do Dubai. É menina que se vê numa hora, mas que se vende toda, até à última bugiganga.

A divisão de tarefas é evidente e costumeira: os emigrantes encarregam-se do trabalho, os imigrantes do lazer.

Imagine-se tudo em tons de castanho, a recriar cinco séculos atrás.

À entrada há casas de pedra – de verão e de inverno –, desenhadas com respeito pelas tendências arquitectónicas dos tempos que se quiseram aqui encaixar.

No palco, posto no centro da aldeia, a puxar a modernice e rodeado de cadeiras, há crianças com vestidos que ofuscam e os guinchos do costume, menos a educação em falta nos modos arábicos.

Nas tendas de paredes e telhados entre a cana e a palha e antes das lojas onde se vende tudo o que ilustre o já repisado costume – dos perfumes aos sapatos de pontas reviradas, sem esquecer os lenços ou as facas de meia-lua – há espécimes de qualidades diversas – digo género, idade e tamanho – para amostra e para interacção.

Comunicamos num misto de inglês mastigado e gestos tolos. Entramos, passamos os olhos, e é feio dizer que não ao café-chá-ou-assim que o ancião serve aos turistas em seis copos pequenos que rodam por todos, depois de mergulhados num alguidar com água. É feio também dizer que não às tâmaras que, por estarem quase mastigadas e guardadas num baú de metal, não passam pelo estreito de ninguém, porque ninguém tem, sequer, coragem de lhes chegar a mão: põe-se o obséquio no bolso e segue-se viagem, a sorrir e a acenar.



A visita termina com o sol a descer e com os gritos dos garotos a descerem com ele. À volta de tudo põe-se um vento frio, que nos empurra para um abrigo onde estão três homens – um miúdo, um muito velho e outro no meio – , à volta de uma fogueira. Insistem nas fotografias:
- “Agora ela”, ordena o velho, em árabe, ao do meio, que traduz.

- “Agora tu”, continua. “Ela é tua mulher?”

- “Sim. Minha namorada. Minha mulher.”

Ouvimos murmurar e sentimos gestos de discussão. O velho intransigente, o miúdo a dissimular a conversa e o do meio aflito.

- “Mas têm filhos?”

- “Filhos não. Mas é minha mulher. Namorada-mulher.”
E eu, de olhos muito abertos, à espera de perceber.

Mais murmúrios e gestos e gestos e vergonhas. Vim-me embora puxada por um braço, com a curiosidade a puxar-me pelo outro. Não se recusa um negócio sem, pelo menos, ouvir a proposta.