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domingo, outubro 24, 2010

Lula, pai dos pobres, mãe dos banqueiros, fascínio de todos

Ao longo da exuberante avenida Paulista, cartão postal da capital de negócios do país, Lula faz sorrir quem fala dele. O presidente sindicalista deixa um Brasil melhor aos olhos da maioria dos brasileiros, independentemente do tamanho das suas carteiras.

Na rua Augusta, em São Paulo, perpendicular ao brilho dos edifícios imponentes das multinacionais, dos saltos altos e dos fatos irrepreensíveis, Lúcia, 54 anos, fala junto à sua banca de lenços de senhora, gorros e bugigangas.

“Se Lula fosse candidato, votaria nele de novo. Mudou muita coisa no Brasil. Em termos de pobreza, o pobre começou a viver com mais dignidade. Hoje o pobre come melhor”, diz.

Lúcia vive sozinha com 600 a 800 reais por mês (274 a 365 euros). Com isso paga “todas as contas”. Diz que vive com dignidade porque “hoje os preços estão praticamente iguais ao que estavam quando Lula assumiu a presidência, há oito anos”, mas, na verdade, diz que vive “praticamente na mesma”.

Com sotaque baiano diz ainda que “é preciso melhorar a Saúde” mas acredita que “se o próximo presidente do Brasil continuar tudo o que Lula tem vindo a fazer, o Brasil vai ficar bom”.

Mais perto do luxo, do brilho, da exuberância e da velocidade, Márcio Alves, paulistano, 32 anos, agente cultural, acha que o Partido dos Trabalhadores, do Presidente Lula, “está a fazer um bom trabalho no Brasil”.

“Os pobres, no geral, puderam comprar carro, a inflação baixou, tudo deu uma melhorada”, diz. Márcio vive com a mulher e com o filho. Vive bem, diverte-se, vai ao teatro. Diz que é razoável viver em São Paulo com dois mil reais por mês (914 euros).

Acha que o próximo Presidente “devia dar mais oportunidades às pessoas mais humildes, pensar mais nos estudos do povo brasileiro para combater a violência, para deixar o Brasil melhor”.

Dentro de um impecável fato azul-escuro, Cláudio Lima, 54 anos, fuma um cigarro à porta do banco em que trabalha. Não tem dúvidas de que vive num país melhor.

“Podem acusar o Lula de ser assistencialista, mas a redistribuirão de rendimentos melhorou [a vida das pessoas]. Acho que o Brasil melhorou também devido à conjuntura mundial”, diz. Os pobres, diz, vivem melhor agora. Não tem, no entanto, a certeza de isso seja apenas obra de Lula da Silva. Para o bancário, é possível viver-se “razoavelmente” em São Paulo com dez mil reais por mês (4 570 euros).

domingo, outubro 17, 2010

As classes do edifício sem classes não veem um Brasil menos desigual

Astrid e Suzi vivem em São Paulo, no Copan, que o arquiteto Oscar Niemeyer projetou na década de 50 para ser um edifício sem classes. Uma vive no maior apartamento do prédio, outra no menor. Visto daqui, o Brasil não está menos desigual.


Astrid já passou dos 70 anos e vive sozinha no maior apartamento do Copan há mais de 30, com o mesmo conforto: “Tenho três quartos, uma sala, duas casas de banho, cozinha, área de serviço, quarto e casa de banho de empregada. São 216 metros quadrados”, conta.

“Viver num edifício destes é como viver numa cidade do interior. O Copan é uma cidade de 5 mil habitantes. É óbvio que não és amigo de toda a gente, é óbvio que tens problemas, mas há algumas características dos grupos que se formam ao longo do tempo que tornam o Copan muito parecido com uma cidade menor”, acrescenta.

A psicóloga aposentada não acha que a sua vida tenha mudado muito, embora considere que o Brasil mudou. As diferenças, diz, não têm diretamente que ver com a governação do Presidente Lula da Silva. “Acho antes que as mudanças têm que ver com um conjunto de medidas que ocorreram num momento histórico oportuno. E parece-me que muitas delas têm um viés muito importante”, diz.

Para Astrid, não há dúvidas de que é preciso diminuir a pobreza no Brasil mas “isso não se faz dando às pessoas dinheiro a troco de filhos, faz-se com educação ou então cria-se mendigos para o resto da vida”.

Por isso, sustenta, vai votar em José Serra, candidato do Partido da Social Democracia Brasileira, “um homem com formação e com princípios”.

Suzi não passou dos 30 há muito tempo e vive há quatro anos no apartamento mais pequeno do Copan, com o marido e com o filho a cumprir um sonho de adolescente.

“Existe um certo deslumbramento com o Copan, dá um certo estatuto, sim. No meu caso nem há grande razão para isso, que moro num espaço de 26 metros quadrados, mas ainda assim gosto, orgulho-me”, conta.

A professora acha que “dizer que o Brasil está um país menos desigual seria um exagero” porque “não é isso que se vê quando se sai à rua e se olha para a quantidade de gente que não tem onde dormir”.

Com o Governo Lula sentiu “mais estabilidade, mais segurança” porque viu no Presidente “a representação do povão, o fim dos magnatas na política”. Ele foi o Presidente que ela esperava. A sua vida, diz, está mais ou menos como dantes, há meses de mais aperto, outros de menos, mas nada mudou radicalmente.