quarta-feira, setembro 03, 2008
domingo, agosto 24, 2008
Maria.
Maria Gertrudes e mais nomes ditos depressa, a seguir. Não consegui decorá-los, com a pressa de saber outras coisas, e a imprudência da pressa. Sempre a pressa.
Uns olhos azuis-água. Claros. Um cabelo arrumado, sem cor. Com um risco ao meio. Cara clara, comprida e boca sem dentes. Um corpo franzino, de mulher de fibra.
«Não foi a menina que um dia me deu um número de telefone e que me disse que eu tinha sido enviada pelos anjos?»
Não era eu, de todo. Eu estava por acaso , de passagem naquelas escadas. Doeu-me no peito a frieza com que todos passavam os degraus sem passarem os olhos por ela. E sentei-me a ouvi-la. Sem pressa, sem a minha pressa.
Maria estava de meias, verdes, grossas, a destoar com o tempo que as roupas dos outros diziam que estava cá fora. Tinha descalçado os sapatos e tinha as pernas meio cruzadas. Não estava sempre ali a pedir. Ligava a senhoras amigas e iam pedir a sítios diferentes. Contou-me, num discurso organizado, que os lares de idosos a maçam e que não sente na cabeça os setenta e cinco anos que já viveu.
«Acordo e só penso em vestir-me para sair, em ficar bonita.»
E estava. Linda.
«Mas há dias em que me sinto gasta, sabe? Precisava de uma escola, para pôr a cabeça a pensar noutras coisas, às vezes ponho-me a pensar nos problemas e fico, fico... E não gosto de voltar a casa. Tenho sempre uma grande solidão comigo.»
Contei-lhe que a solidão também traz liberdades, e que, vivendo sozinha, nunca precisa de dar cavaco a ninguém sobre nada. Nunca tem que ceder. Sorriu, subiu o olhar, pensativa, e concordou comigo.
Mas era uma mágoa grande, a que a vida lhe tinha deixado. Quatro filhos e uma neta criados – «A Paula, a minha Paula. Ainda esta semana me veio ver, me pagou o pequeno –almoço». A Paula dela e um brilho nos olhos. – e uma casa vazia, num bairro lisboeta, à sua espera, todos os dias.
O dinheiro falta-lhe, claro. Trabalha desde os oito anos de idade, quando começou «a servir em casa de gente alta, muito alta, deste país», e ganha cento e cinquenta euros de reforma.
«Peço porque preciso de dinheiro, claro. Porque não me chega. Vivo sozinha, tenho que pagar as minhas contas. Mas o que me dói mais, mais do que tudo, é não ter quem me dê um abraço. Muito poucas vezes tenho um carinho. Uma moeda é fácil de arranjar.»
Abracei-a com força e dei-lhe um beijo, que ela retribuiu. A partir desse abraço – acho que mesmo antes, bastante antes dele – fiquei amiga da Maria. Mas como os garotos pequenos ficam namorados uns dos outros, em segredo.
Levantei-me para apanhar o metro, que estava a chegar. E despedi-me de fugida, como se faz para não custar tanto. Voltei com as pernas a tremer, de coisas do coração e de vergonha pela minha impotência. Gostava de ter feito tão bem à Maria como ela me fez a mim.
Não fui, de facto, eu que lhe disse que ela tinha vindo com os anjos. Mas talvez perca a vergonha e lho diga quando voltar a vê-la.
segunda-feira, abril 07, 2008
O Poeta beija-tudo. Sebastião da Gama.
quarta-feira, março 12, 2008
(In)Diferenças.
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
A minha avó.
Tem um sorriso de boca aberta, só com dois dentes.
Giro.
Tem as mãos como as de todas as avós: macias.
Usa camisas e chinelos e xailes iguais às das avós dos outros.
Mas tem uns olhos que são só dela.
Tem os olhos cheios de curiosidade.
Passa o dia sentada em frente à televisão e manda no mundo com aquele comando.
Há idades em que se pode mandar.
E ela manda que nunca se levanta antes das duas.
Mas «nunca dorme, nunca dorme».
«Descansa os olhos» que, já se sabe, ressonam.
Gira.
Usa o cabelo cinzento, todo penteado para trás, preso com dois ganchos modernos.
A minha avó tem um telemóvel, uma telefonia e um aparelho no ouvido.
É gira e tem o que ela quiser.
E tem comprimidos. Muitos.
Gosta de dizer que toda a vida tem sofrido. E suspira, e suspira.
Troca as palavras complicadas.
É gira.
E é gulosa. E gira.
E é minha avó.
Parabéns, Catarina.
Catarina.
Condensada. Sagaz.
Catarina.
Não anda, dá pulinhos.
Pequenina, a puxar para o franzina.
Catarina.
Distraída. Gaiteira.
De malinha, pequenininha, pendurada na mão de unhas vermelhas.
Catarina.
Sorriso de franja tímida.
Menina.
Pequenina, franzina, Catarina.
quinta-feira, novembro 15, 2007
Almada(da)

Sentei-me no chão das estórias da história que passou por ali. Estórias que pintaram a Alma das cores que cheiram a Tejo. E sonhei.
As luzes acenderam-se e a noite foi trazendo o vento. Vim a ver a rua e senti saudades. Saudades de quando um choro gritado era imperativo e panaceia, porque alguém resolvia o que fosse, ali, logo. Saudades do beijinho da mãe, que fazia a dor passar. Saudades da boca lambuzada de chocolates e gelado. Saudades de não saber ver as horas.
Saudades de mim antes de ser este eu de agora. Saudades de me encontrar, perdida, na minha minha Almada. Que tem cheiro de poesia e de coisas a que os miúdos pequenos brincam.
Fotografia: Paulo Raimundo