Voz rouca, como quem quer puxar a coisa para o sexy, boca colada ao microfone, como quem fala ao ouvido. Puro charme cabo-verdiano. Como sempre e em tudo.
Sorri e o António veio-me à cabeça. E o Rui, o Edimilson e o Valter. O José e o João. E todos os outros: dezenas. Todos na minha cabeça mais a poesia do engate cabo-verdiano.
Todas as mulheres são lindas aqui, mesmo depois de acordar, mesmo despenteadas, sujas, ramelosas, mesmo tudo. Não é difícil receber mais de três pedidos de casamento por dia.
Ser mulher branca é um bocadinho pior. É mais ou menos ser a sensação da rua em que se passa, qualquer que ela seja. É ver cabeças a girar, sentir olhares demorados, ouvir convites desaforados. E desejar, mais que nunca, ter, efectivamente, o rabo monstruoso, a cara terrível, umas pernas gordíssimas e um corpo de barril. É perdoar todas as divas da pop por serem tão lindas, porque, no fundo, ninguém merece.
Eram duas da tarde. A praia estava quase vazia e a minha hora-e-meia-duas de almoço estava quase no fim. Fui espreitar o sol e molhar os pés.
- “Olá! Como te chamas? Tens medo da água?” Figura negra, alta, encorpada. Olhos escuros e t-shirt na mão.
- “Vim só molhar os pés, vou trabalhar.” Olhei para o lado, como quem foge, entre o medo e o como-é-que-é-possível-que-as-solteironas-desesperadas-do-mundo-não-tenham-ainda-ouvido-falar-desta-libido-atlântica?
- “Não devias vir tão vestida para a praia, não é justo. És egoísta. Queres o meu calção, agora que já tens o meu coração? Assim podias mergulhar, eu ia gostar... Como é que te chamas?”
- “Não vale a pena, obrigada. Joana. Tu?” E uns passos para o lado, sem querer parecer mal educada.
- “O meu nome é ti amo, o meu apelido é ti quero, fofa. Dás-me o teu número? Acho que podíamos conversar um bocadinho, estou a sentir por ti um fraquinho.” Um balanço gingão e um piscar de olho gabiru.
- “Tenho que ir, desculpa.”
-“Ah, que chato! Dou-te pelo menos um beijinho antes de ires! Só quem gosta de verdade é que sabe o que é a saudade. És comprometida, quirida?”
- “Claro! Tenho dois namorados, pelo menos. Enormes e muito fortes.” Passos maiores para longe, mas a mão dele na minha.
- “Eu posso ser o terceiro. Também tenho duas mulheres, uma quase a ter um bebé. Vamos ser muito felizes. Queres casar? Vou saber ti’amar.”
-“Não me dá jeito, mas obrigada pela atenção.”
- “Vá lá! Eles são brancos? Deixa eles. Preto faz melhor relação do que branco. Tenho um coração grande, cabe tudo. Quando vejo uma princesa assim, fofa, o coração bate alto, alto, alto e cresce. Dá-me um beijinho, mata esse fraquinho.” Um avanço e medo, a fugir, definitivamente.
- “Adeus!”
- “Não posso te beijar? Tudo bem, não vou forçar. Vou guardar o desenho dos teus olhos para em segredo te amar.”
Quase corri para o táxi. Entrei e suspirei de alívio. O senhor respondia a tudo “oui-oui”. Um descanso. Ainda tentei perceber se falava português ou francês, ainda lhe disse que era portuguesa e jornalista. Depois desisti. “Oui-oui! Oui-oui!” Um descanso.


















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