E depois do centro, a cidade da Praia tem os restos disto tudo: os feios; os desempregados; os que somaram azares e coincidências infelizes; os sujos; os que não sorriem porque já não têm dentes; os que têm as roupas rotas, sem cor; os que têm que andar descalços; e os que são tudo isto ao mesmo tempo.
A paisagem mistura o cimento das 30 casas que compõem o bairro, algumas manchas de um verde que não serve para nada, porque a terra não é fértil, e o castanho do pó que se levanta da estrada de pedregulhos e terra batida.

Passam, devagar, galinhas, vacas, bezerros e porcos cheios de carraças e tão magros como os orçamentos que estas famílias têm para sobreviver.
Guida tem cinco filhos e “um pouco de pão e água com açúcar no estômago”; a única coisa que conseguiu arranjar para comer de manhã. De resto, ou restos ou nada: Não tem cama, não tem colchão, não tem emprego, não tem fogão, não tem nenhum pedaço de terra para cultivar, não tem um negócio. Também não tem marido:“Ao menos assim não vêm mais crianças”, diz-me. Olhos negros, grandes, rasgados e brilhantes. Um corpo esguio numa camisa de mangas cavas e nuns calções largos, pretos.
Guida tem, se quiser água, uma hora de caminho pela frente: meia com o bidão vazio, na mão, outra meia com ele cheio, à cabeça. Tem sapatos, de quando em vez, se os restos forem do seu número ou de um número a mais ou a menos.
“O meu dia? Acordo, se tiver comida como. Se não, espero. Logo se vê. Umas vezes as vizinhas dão, outras vezes elas também não têm. Espera-se.” Fala-me com calma e solta várias vezes gargalhadas. Tem um sorriso lindo, luminoso, franco. Percebe mal o meu crioulês ridículo, só tem restos de português na cabeça. Aprende a língua quem vai à escola, e sem dinheiro não se vai a lado nenhum: espera-se.

“Os meus meninos vão muitas vezes dormir com fome”, conta-me, de cabeça baixa.
Andam sempre a pé. Mas têm telemóveis: “uma vizinha deu-nos. Disse que era porque podíamos precisar de alguma coisa. Ainda não precisámos de nada de especial.”
“Não temos serviço médico porque é preciso algum dinheiro para fazer a ficha e para pagar taxas. Quando estamos doentes esperamos que passe.”
Susy é filha de Guida. Tem 12 anos e um ar doce, levemente cansado do esforço para se parecer com as meninas da sua idade. “Na minha escola não há quase ninguém que viva num sítio como este.” Está de saída para a escola, avisa que não pode demorar-se, que tem que contar com meia hora a pé.
“Hoje até acordei aborrecida. Ainda bem que vieram. Com a televisão aqui fico muito mais descansada. Sei que as coisas vão resultar. Eu hei-de sair daqui. Vou estudar para ser professora. E agora sinto mesmo que vou.“
Engoli em seco e pus a caneta no bolso.
A notícia de que a televisão está por ali corre depressa. As pessoas vão chegando, com crianças pela mão e com o melhor que têm vestido. Põem-se em fila para contarem a sua história.

Despedi-me com um sorriso preso, um nó na garganta e com as lágrimas suspensas pelo respeito.
Segui com tudo apertado no peito para Palmarejo Grande, a 10 minutos deste sítio, onde o primeiro-ministro
de Cabo Verde, José Maria Neves, ia lançar a primeira pedra de um luxuoso e megalómano empreendimento de habitação. “É tempo de pensar em construção de qualidade em Cabo Verde”, afirmou.
Na minha cabeça, aos soluços e entre os ecos do estômago dos habitantes do Jamaica, ouvi palavras diferentes, as da vida real, saírem traduzidas da boca do chefe de Governo.























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